quarta-feira, 21 de abril de 2010



quinta-feira, 25 de março de 2010

ladrões de mergulhos

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Ah, a piscina dos Olivais! Lembro-me de lá ir em miúdo muitas vezes, e quase sempre como da primeira vez, roubando banhos.

Ao princípio ia com o meu pai, lá pelas tardes caniculares de algum verão muito longínquo. Ia escuso, ilegal, mas aconchegado na presença dele. Acho que custava 25 tostões a entrada na piscina grande mas eu nem lá podia entrar que tão tenra idade não me permitia. Íamos então para a piscina das crianças, no terreno lá mais abaixo, para os lados do campo de ténis. Só que pouco depois lançávamo-nos os três pela rampa da calçada acima e esgueirávamo-nos por entre muros para a piscina dos saltos, a dos ‘adultos’. Foi lá que aprendi a saltar, primeiro da prancha de 1 metro, depois, valentão, seguindo o meu irmão mais velho, da dos três. Não sei que idade tinha, mas era tão novo que quase não sabia nadar. Lembro-me disto porque mergulhava de viés, para reduzir o caminho da água que após o mergulho eu fazia atabalhoadamente, quase sempre debaixo da superfície, retendo a respiração, que ali não podia trazer comigo as braçadeiras. Como disse, eram tardes clandestinas - embora disfarçadas pela presença imunizante do meu pai. Levávamos no tornozelo uma pulseira (dir-se-á tornozeleira?) de cor verde, que nos davam com a entrega da roupa e que se destacava das dos crescidos, que eram pretas, e era isso que evidenciava a minha presença furtiva na piscina dos olivais e tornava a tarde ainda mais entusiasmante, que ali se arriscava (a prisão, pensaria eu?), ainda por cima na cumplicidade do meu pai.

Depois cresci e já podia entrar na piscina dos grandes, só que aí já raramente ia com o meu pai. Mas muitas vezes não tinha dinheiro. Saltávamos então o muro junto à Av. de Berlim, escondíamos a trouxa de roupa no canteiro dos lírios e disparávamos pela relva fora até ficarmos fora das vistas. Já não usava a pulseira verde, mas por razões óbvias também não tinha a ‘legalizadora’ pulseira preta. Mais tarde, apesar de continuar a frequentá-la, deixei de lhe achar graça. Pode bem ter sido por se tornar uma fraca alternativa à praia (agora já alcançável) e às simpáticas companhias que ela trazia, mas provavelmente terá sido por falta dos banhos de adrenalina com que me habituei, em mais novo, nessa simpática clandestinidade com que nela mergulhava.
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por Fulacunda

sexta-feira, 19 de março de 2010





(clicar nas fotos... a ver se alguém conhecido)

domingo, 7 de março de 2010

Quarto com vista para Santiago do Chile


Quando este blogue começou lembro-me da sensação maravilhosa de fazer parte. E fazer parte através de textos, de textículos, coisas que sempre cultivei, ainda era melhor. Olhar para os outros era uma forma de rapidamente contar uma história. Agora tenho a Olivesaria ali no rol dos blogues do dia e vou esperando que alguém escreva alguma coisa. A folha demora a baixar. Dos últimos cinco posts três são meus e quase todos eles espaçados mais ao menos um mês. Nunca mais encontrei o M. nem nunca ele mais me perguntou pelo blogue ali no sitio onde às vezes havia caracóis e oliveiras, tudo no mesmo prato. Também agora que penso nisso seria dificil que ele o perguntasse, se nunca mais o encontrei. Agora tenho menos tempo, digo de mim para mim, para justificar o não vir aqui. Mas é mentira. Os dias continuam a ter as mesmíssimas vinte e quatro horas, as semanas os mesmos sete dias e os meses, trinta e trinta e um dias, conforme. Ainda não senti nenhuma influência da aceleração da rotação da terra provocada pelo terramoto do Chile. O terramoto do Chile, por mais estúpido que seja, fez-me lembrar os Olivais, este quarto, o beliche alemão, que eu partilhava com o meu irmão. As casas eram grandes mas não suficientemente grandes para cada um ter o seu quarto. Ele está agora em Santiago do Chile e eu tenho saudades dele. Apanhou o susto da sua vida. E eu estou para aqui a arranhar a folha. Só para dizer que isto me faz o mesmo sentido do que a primeira vez que aqui vim. Confesso que quando não venho cá passam-se dias em que nem me lembro que isto existe. Como disse, vou olhando a lista dos blogues e se não há actualizações esqueço-o . Mas há um momento em que isto me linka ao real, ao meu real. É quando vou ao bairro. Há qualquer coisa que o ir ao bairro me desperta. Uma vontade de, uma necessidade. Talvez seja a minha percepção de que estou a aproximar-me de um tempo em que já não sou jovem, em que há explicações de mim que andam, aos trambolhões, pelas ruas da minha adolescência. E os Olivais explicam muita coisa em mim. Por outro lado gosto da forma como o meu filho gosta dos Olivais, da casa da avó. Vou passar a ir mais vezes ao bairro.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

e olha quem ele é!

(e retransmite-se na íntegra saudosa mensagem remetida para o email deste blog)

" Caros companheiros de aventuras futebolísticas sou o Toninho B
fielmente retratado no capitulo do Maracangalha, aquele grande mestre do futebol
o das botas ortopédicas.


No decorrer dos anos 80 iniciei minha vida fora de
Portugal passando por a França, África do Sul até ao Brasil onde resido
hoje em Brasília e onde aconteceu o principal evento, FUI PAI DE
TRIGÊMEOS.

Encaminho um grande abraço a todos e saudações,


Antonio Barrigana "

sábado, 23 de janeiro de 2010

Pó, poeira, livros, Olivais




Tinha ido ao lançamento do caderno de memórias da Isabel Figueiredo. Na Pó dos Livros. De repente percebo que o dono da livraria era o Jaime, que eu não via há milhares de anos, desde os tempos em que habitámos o mesmo bairro (onde a palavra tinha outros significados que não aquelas partículas que se alojam nas páginas dos livros). Desde as festas da garagem do Johnny, ou da Vila Catió. A fotografia é reles, eu sei. Os combinados, nos telemóveis, fazem de conta de que são um pouco de tudo, não sendo quase nada daquilo que nós esperamos que eles sejam. Mas são o que temos para agarrarmos no real e o trazermos para aqui, dizendo, olhem, é o Jaime. E saudarmos - nós que vimos aqui apalavrarmos a nossa identidade - uma vida ao pé dos livros.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

as festas de sábado à tarde

Não há muito a dizer sobre elas, já que aqui me escuso a evocar os tremores dos primeiros namoros que por elas se semeavam, que esses sim, poderiam facilmente escrevinhar largos capítulos de uma sequela sem fim. A rotina era quase sempre a mesma. Entravamos pelas festas adentro arrogados de valentões. Depois comíamos, bebíamos e dançávamos espaventosamente, sem que nenhum miúdo mais destemido nos interpelasse. Marcado o território retirávamos então em glória, foliões, deixando um rasto de ruído alarve. Eram assim as nossas pândegas de sábado à tarde, quando tínhamos a sorte de encontrar uma festa desabrigada. As tardes menos boas eram quando os mais velhos entravam pelas nossas festas adentro, arrogados de valentões, até delas saírem saciados, deixando atrás de si um rasto de ruído alarve.

por Fulacunda

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Intervalo para almoço


Telefono para casa. Para falar com a minha mãe. Apeteceu-me. Vou almoçar, antes disso fiz uma pausa, vim até ao Olivesaria, um sentimento de amizade invade-me sempre que aqui venho, amizade e história, a minha história, de repente lembrei-me da minha mãe, por onde parará?, ligo para casa. O atendedor de chamadas é o primeiro a chegar ao telefone. Ligo para o telemóvel. Estou a conduzir, meu filho, diz ela, não é urgente, é só para te dar um beijinho, respondo, para te dizer que te amo, penso de mim para mim, que preciso da minha árvore, o fim do século XX, que acabou, soube pelo JPT, ainda não me fez o homem-robot que antevi ser quando chegasse ao ano 2000.

Ocorrem-me sabores entretanto. A tortilha espanhola que a minha mãe fazia tão bem. A sopa de feijão vermelho com couve portuguesa. O empadão de carne, com a pele a estalar. O souflé de peixe. E, para lá dos sabores, o tempo. O que de mais importante me lembro é a sensação do tempo a abrir-se, a espraiar-se, a lentificar-se. Como este pequeno devaneio.
Ainda sou o mesmo, um tipo que chega ao momento de ir almoçar e que, enquanto fecha o expediente do serviço, se apercebe que, por maior romantismo que ponha na forma como olha o seu dia-a-dia, se tornou naquele burocrata que ridicularizava aos seus vinte anos. E que depois levanta a cabeça, como a avestruz, agarrando o gôle de ar que, durante todo o dia, fará a diferença. Como diz o , descubro uma nova e não catalogada forma de heroísmo, sobreviver à minha ideia juvenil de mundo. E é assim, com a cabeça levemente inclinada sobre o olival, que saio, estupidamente feliz, reizinho do meu mundo, para o lado de fora deste teatro onde quase nada do que é, parece.

domingo, 25 de outubro de 2009

A menina do cão do fiat



Não tivesse vindo cá abaixo buscar as compras que a minha mãe deixara no carro e provavelmente nem repararia naquela inscrição feita na parede do meu antigo prédio, na rua cidade João Belo. Estava noite, o que para além de dificultar a própria memória fotográfica também acrescentou algo de misterioso à mensagem que se ligou, invisivelmente, a mim, ao modo platónico como vivi a minha adolescência nos Olivais. Espero - para reconforto do anónimo apaixonado - que a rapariga do cão do fiat se tenha enternecido tanto com a mensagem como eu.
Não era o Amo-te Daniela, que tantas vezes encontramos grafitado ou desenhado nas paredes, sem um pingo de sensibilidade, de reserva, com aquele desvairio adolescente que faz com que pensemos que as pessoas a quem dizemos que amamos são nossa posse. Não, quem escreveu aquilo ama na sombra. Nem nunca se aproximou o suficiente do objecto da sua paixão. Se o tivesse feito, teria, num dia de sorte, ouvido o seu nome gritado de uma janela, de uma varanda, de um extremo da rua. Sempre se falou alto nos Olivais. Não, o amante é sibilino. Esconde-se, na noite, nas tardes, nas manhãs. Vê-a partir e regressar todos os dias, no seu fiat. Não é um wolksvagen, um opel, um citroen, um peugeot. É um fiat, italiano, temperamental, romântico. A menina do fiat faz parte de um universo sentimental, eivado de romantismo. Ao escrever isto, é como se eu mesmo estivesse a espiar esta história, esta pequena história de amor. Ele, o amante da menina do fiat, espera que ela vá passear o cão, acompanha-a. O que o revela na paisagem humana do bairro. Se o lugar ainda mantém as características daquele onde vivi a adolescência, há dois grandes tipos de pinga-amores que contribuem para o exarcebar amoroso que sempre caracterizou a vida entre oliveiras. Aqueles que, como eu - já me denunciei atrás, agora é tarde para desfazer- que, na sua timidez e acabrunhamento se escondem entre a sombra para ficar ali a ver as horas do seu tempo, do seu enamoramento. E os que - como por exemplo o Bafatá - tentariam arranjar logo um canídeo (comprassem-no, pedissem-no emprestado, atassem uma corda como coleira ao primeiro vadio que encontrassem), para poderem entabular uma conversa que, como um cerco, faria com que a menina do fiat passasse a ser mais uma letra no abecedário dos nossos rudolfos valentinos. Não, o amante inconfessável da menina do cão do fiat, treme só de pensar que a sua amada possa descobrir quem ele é, a sua identidade. No seu anonimato não pode no entanto deixar de lhe dizer que a ama. Ele quer que ela se sinta amada. Que saiba que é amada. É assim a imensa generosidade da platonia: consome-se num ardor, numa incandescência amorosa que não exige nada em troca, mas que tem de partilhar a sua existência apaixonada. E é como se sussurasse: menina, menina do cão, menina do fiat. Para que ela, todos os dias quando sair ou regressar a casa, possa saber que há alguém, tão doce que trata a rapariga por menina, que a ama sem pedir nada em troca. A quem basta apenas o desfiar da página de um romance vivo, feito de passeios com o cão ou voltas no fiat. É pouco? Não, é tudo. A menina do cão do fiat e o seu secreto amante estão à altura das mais altas tradições romanescas do bairro.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Da Jovialidade dos Cafés dos Olivais

Era uma vez, once upon a time, il était une fois, es war einmal, (em todas estas línguas aprendi a falar nos Olivais)...meia dúzia de cafés num bairro jovial...Eis alguns dos nomes de que me recordo dos famigerados cafés dos Olivais, lugares muito vivos de encontros, convívios, troca de olhares, murmúrios sobre este e aquela, centros de decisão de aventuras e caminhadas, cinemas e bulícios, revoluções e evoluções, teatros (Comuna) e concertos (Cascais Jazz, festa do Avante de outros tempos, concertos Gulbenkyan, Hot Club, ai, aquela Praça da Alegria de alegre memória jazística), praias e piscinas, festas em «casa de» e passeatas românticas no Seminário dos Olivais, pontos de reuniões múltiplas e, por vezes, centros de acesso a outras maravilhas, entre uma bica ou uma imperial com tremoços (ainda existem os tremoços?), um cigarro e um sorriso, gargalhadas de inverno e primavera, uma rápida leitura ao jornal...O «Tó», o «Cheira Mal» (este tinha também outros nomes, creio que também lhe chamavam «Rescumenga» e o «Zé»), o «Belo Horizonte», a «Nanu», o «Gordo» (nunca lá entrei mas sei que era famoso, sabe-se lá porquê...), o «Cabeça de Touro» do famigerado corvo, negro e atiradiço, de bico amarelo pronto à mordidela, o Sorraia (sempre muito queque), um outro café no largo do Sorraia e de que não me lembro o nome, mais tarde alargaram o espaço de baixo e fizeram esplanada fechada onde serviam um belo cozido à portuguesa, e, lá para o Norte, um tal Tábuas, onde entrei uma vez ou duas, aquilo era do clã do Norte...Todos eles passaram por várias fases de remodelação estrutural e humana. A fauna humana também variava de café para café, o Tó começou por ser «queque» e o «Rescumenga» menos «queque», mas, mais tarde equilibraram-se, ao bom estilo do bairro dos Olivais, bairro criado para todos os estilos e feitios e tipos de jovialidade. O «Tó» tinha a vantagem de possuir uma pequena papelaria onde comecei por comprar Tio Patinhas e folhas de cartolina para os Trabalhos Manuais, depois Tintins, postais de aniversário e cadernos espiralados e, mais tarde, o Sete, de boa memória, que me informava de tudo o que era concerto em Portugal, e o famigerado SG Filtro, que vim a abandonar em favor do Português Suave. O «Tó» era suave...O «Cheira Mal», menos suave, pululava de imperiais e tremoços e de muitas beatas no chão, mas tinha um ar alegre airoso no meio da confusão do futebol, por vezes, transmitido lá pelo televisor no alto (antes era a preto e branco, agora é todo preto e moderno e a cores, plasma, acho eu). Era menos suave, mas regurgitava vida. O Sorraia... bem, era o Sorraia, lugar de lanches familiares com aquela belíssima pastelaria e o bolo-rei do Natal, muito bom, ainda hoje por vezes o lá compro. O Nanu também balançava entre estilos de fauna, sempre muito animado e comprido até lá ao fundo, a começar pela esplanada, ali, a dar mesmo para o 21. Perto do Nanu, havia o «da dona Rosa», mais tasquinha, com uns belos caracóis de Verão...Ah, e por caracóis e caracoletas grelhadas evoco aqui o meu querido Palmeiras, lá para os Olivais Velho, zona linda e antiga, pequenina, com igreja e palmeira e tudo, onde ainda hoje vou, gosto da esplanada, do sol, da palmeira, dos caracóis em Julho e dos «secretos» no Outono, lá dentro...Pois do «Gordo» pouco poderei dizer, a não ser que era famoso, sabe-se lá porquê...um dia cheguei lá perto, aquilo era uma roda viva de gente a entrar e a sair, todos muito atarefados...O Belo Horizonte também me foi simpático, recordo umas tardes de Verão lá fora, na esplanada, a fauna também mista, via-se de tudo, mas era também algo suave...O Tábuas tinha nome, quando o clã do Norte falava do «Tábuas», a curiosidade minha, eu, do clã do Sul, despertava, era como se algo de esotérico lá se passasse...enfim, havia uma certa ideia de que o clã do Norte era uma espécie de elite aristocrática. O «cabeça de Touro» era onde iam «lanchar» outras famílias, um lanche mais virado ao caracol e à imperial do que aos requintados bolitos do Sorraia, havia sempre muitos homens de bigode e camisa deslavada, cheirava a cerveja entornada e a vinho tinto e não era bem lugar que se «frequentasse» até...se equilibrar também. Sofisticou-se. Já não há barris de vinho derramado e o corvo andará por outros céus. Tenho memória de uma certa manhã no «Cheira Mal», onde olhei olhos nos olhos os olhos mais azuis da minha vida, de uma tarde no Tó, a discutir a revolução de Abril, aos quinze anos, de uma noite na Nanu onde um grupo alegre, jovial, pois então, o meu, entrou só para comprar uma garrafa de whisky para continuar a noite, de um anoitecer na «D. Rosa» nos caracóis, depois da praia, com um livro do Alberto Caeiro cheio de areia nas mãos e uma espécie de desgarrada do «Guardador de Rebanhos», de um belo fim de tarde de Verão, no «Belo Horizonte», com um gupo animado, em alguém me fez um elogio amigável que me deixou feliz, de um jantar no «cabeça de Touro», já no tempo da sofisticação e do cozido à portuguesa, das manhãs em que nos encontrávamos e, indecisos, não sabíamos bem se continuaríamos a conversa e os cigarros pelos cafés ou em casa de alguém...enfim, outras eras, antes dos cafés virtuais em que toda a gente fala mas ninguém se vê. «Foste aoTó? Viste o João? A Ana apareceu?»...«Vai ter ao Nanu, depois falamos»...«Aparece no Cheira Mal logo à tarde»...«'Bora, vamos ao Belo Horizonte»...Hoje em dia é mais: «foste ao Olivesaria? «Já viste o que está no A ver O Mundo?»..«Ah, vai ao Bibliotecário da babel e verás!»..«Há muito que não vou aos Amigos de Alex, e tu, tens ido?»...As vozes ecoam agora no ciberespaço, mais do que nos cafés onde deixei de ir, com pena.
Muito poderia ainda dizer sobre os cafés dos Olivais, pelo menos, daqueles que melhor conheci, mas a ideia apanhou-me num relâmpago e resolvi colocar tudo isto já a preto e branco antes que a memória me leve as imagens e os nomes, as tardes e as noites, o cigarro, a imperial e a bica e os rostos de todos aqueles que conheci e vejo ainda ou deixei de ver, uns levados pela vida, outros pela morte e que saudades. Os donos também eram umas figuras, uns mais bem-humorados do que outros. Creio que o senhor António era o dono do Tó e o senhor Zé era o dono do «Cheira Mal»; dos outros, não me recordo ou nunca soube a quem pertenciam. Não faz mal. os cafés não se importam, mudam de dono e de nome como quem não quer a coisa, mas guardam a memória milimétrica das coisas nas paredes, no chão, no tecto, num algures espacial sem nome. Um dia destes, vou aos Olivais e farei uma ronda pelos cafés, só para ver como as coisas estão. Sei que já lá não te encontrarei, amigo, mas fica para a próxima...vida. Até já.
por Maria Correia

sábado, 15 de agosto de 2009

"Há sempre um olivalense à tua espera"‏

Sempre soubemos que partissemos para onde partissemos, aportassemos onde aportassemos, sempre se encontraria "alguém dos Olivais" - coisas de crescer naquela que, mito ou não, era dita a maior freguesia da Europa (e isto já quando o maior centro comercial do país era o Apolo 70). Enfim, não me quero afastar da questão, essa de fosse onde fosse "haver sempre um olivalense à tua espera". E logo um taco arranjado, uma companhia cruzada, um cigarro (de qualquer coisa) partilhado, no fundo uma segurança tribal. Vem-me isto a propósito do que me aconteceu há não muito, avançar até ao Lumbo, fronteiro à Ilha de Moçambique, abancar num panquê fantástico quase à sombra do embondeiro, e naquela margem índica encontrar, inesperadamente, dois legítimos olivalenses, um tal de kiko, aproximado aos da catió, confidenciou, e um outro zézé, dos betos da bolama, reclamou.

por: Bolama


segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Foi em 1965 que os meus pais tomaram a decisão: mudar da Avenida do Brasil para os Olivais Norte. Eu era muito pequeno, mas contaram-me do que então se falou. Que os Olivais eram longe, reclamava a minha avó, que quase não havia transportes para lá, e que o prédio – onde vivi até aos meus 27 anos – era uma corrente de ar de tão aberto. A favor, no entender dos meus pais, as casas serem enormes e nem por isso caras (havia o regime da habitação económica).
O facto é que a 20 de Junho de 1965 (sei a data de cor por ter sido na véspera de fazer três anos) eu, os meus dois irmãos mais velhos e os meus pais passámos a dormir num novo território, quase sem carros, com matagal a envolver ruelas. Mesmo à frente da minha casa, um poço fazia as delícias dos “ciganos” – nome a que baptizávamos todos os miúdos pobres que desafiavam a nossa segurança. Recordo-me bem desse poço ainda aberto, com duas tábuas de aspecto duvidoso (leia-se podres) em cima, e das lendas que o acompanhavam. Por entre as tábuas atirávamos pedras para tentar perceber a sua profundidade. Era fundo.
Já não sei dizer quando é que a CML decidiu “recuperar” o poço e as arcadas, vestígios de uma quinta secular dos Olivais. Éramos miúdos mas ficámos horrorizados com o resultado, de tal forma que – lembro-me – termos comentado que para terem feito aquilo mais valia terem deitado as “ruínas” abaixo.
Nao me parece que a nossa irritação tivesse a ver com uma consciência patrimonial, mas talvez com o facto de terem tirado magia ao nosso brinquedo.
Mas, adiante, com o tempo – e o fim das barracas que envolviam o bairro -, as ruínas cada vez foram mais um espaço nosso, dos putos que viviam nos prédios altos da Rua General Silva Freire. Era ali que escondíamos os maços de cigarros, nas heras que trepavam pelas arcadas, e em cima do tampo do poço – já devidamente cimentado – conversávamos sobre tudo e nada até altas horas.
Nessa altura já o capim dera lugar à relva, onde as árvores eram colocadas – a nosso ver – para estragar os nossos campos de futebol. Conclusão: à noite íamos com uma serra e cortávamo-las (a prova de que a ecologia era para nós uma ideia distante). Dias depois, novas eram plantadas e assim se fazia o jogo do rato e do gato.
Também as ruínas serviam as “forças de autoridade”, que ali se escondiam para tentarem fazer “refém” a nossa bola, uma vez que a nós dificilmente apanhavam. É que era proibido jogar à bola na relva, e por essa "perigosa transgressão" várias vezes nos levaram para a esquadra. Numa delas - não tínhamos mais do que 13, 14 anos -, fomos o caminho todo a insultar um polícia que tinha tirado a pistola do coldre para nos deter. Ele, o polícia, já nem sabia onde se meter, presumo (ou quero presumir) consciente do abuso que tinha acabado de cometer, talvez motivado pelo desespero de dias sem nos conseguir meter as mãos em cima. Um de nós, que se “esticou” mais nas queixas, ficou detido durante algumas horas na esquadra da Encarnação e teve que ser o pai a tirá-lo de lá.
Tantas histórias daquele lugar me enchem a memória. Os frutos vermelhos que arrancávamos dos arbustos e que comíamos como sendo o nosso “remédio”, as cenas de pedrada com os “charlôs” que viviam nos prédios brancos em cima dos nossos – e que por isso tinham logo a vantagem geográfica do lado deles – e, claro, as primeiras paixões vividas nos arredores daquele poço onde um dia alguém me iniciou no tabaco. Travei o cigarro todo para me fazer homem, apesar dos meus parcos 11 anos, deitei-me e vi as ruínas a girarem a mil à hora. Com aquela idade, já podia palmilhar o bairro todo - nas férias só ia a casa para comer e pirava-me rapidamente - sem que os meus pais se preocupassem. E se calhar boas razões teriam para isso.
Os anos foram passando e os disparates aumentando, especialmente com o advento do PREC. Criámos o MRLO (Movimento Revolucionário de Libertação dos Olivais), pichámos tudo o que era paredes com as siglas do movimento e era, claro, no poço que reuníamos o Comité Central. Vieram as primeiras bebedeiras, inauguradas em casa de um amigo cujos pais estavam para fora. Decidimos experimentar um pouco do líquido de cada garrafa que eles tinham na garrafeira e horas depois pensei que ia morrer. Mais tarde, as motos, e com elas o reencontro com as forças da autoridade, com as suas Casal Boss atrás de nós num novo jogo do gato e do rato.
Hoje, quando volto ao bairro - onde os meus pais ainda vivem - desconsola-me a total ausência de crianças a brincar na rua. Em cima da nossa relva, repousa há demasiados meses um estaleiro que dará origem a uma nova estação de Metro. Entendo a vantagem de tal coisa quando um dia esteja a funcionar, mas não deixo de me arrepiar com o inevitável bulício que irá trazer àquela zona, que ficou para a história como a forma mais pura do modelo corbusiano (saído da Carta de Atenas) alguma vez experimentado em Portugal.

enviado por: Pedro Prostes da Fonseca

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A Junta de Freguesia de Santa Maria dos Olivais e o Instituto IDEIA, têm a honra de convidar sua Excelência para a inauguração da exposição "Bordados de Castelo Branco" por Isabel Moreira.
A artista, do nosso bairro, mostrará que a tradição e elegância será sempre compatível e actual.
Dia 10 de Agosto, pelas 19h00. Será servido um cocktail.
Casa da Cultura dos Olivais
Rua Conselheiro Mariano de Carvalho, 68 (Olivais Velho)
Recebido de:
Cláudia Monteiro
Gestora da Casa da Cultura dos Olivais

terça-feira, 4 de agosto de 2009

SESIMBRA














Aproveito o embalo imparável do Bolama e carimbo o verão com um “post” de fato de banho e chinelos.
Sempre que o verão reclama as primeiras imperiais, lembro-me invariavelmente de Sesimbra.
Dos 13 aos vinte e poucos anos, era lá que “descansava” da minha (in)actividade escolar. Aliás, sempre me esforcei bastante para que a vida de estudante não fosse demasiado absorvente, de modo a que os 4/5 meses de férias (conquista de Abril que todos muito apreciávamos) fossem suficientes para recuperar energias. Era de tal forma prolongada a nossa estadia por aquelas bandas que contribuíamos para o ferrolhar do verão, ajudando o velho banheiro Jacinto no final da época, a desmontar a praia e a transportar os toldos e cadeiras para o armazém onde repousavam no inverno.


No fim das aulas, a família mudava-se para Sesimbra e iniciava-se o ritual veraneante.
Mas não ia sozinho. Eram muitas as famílias dos Olivais (e de outras paragens também, mas essas não contavam) que o faziam.
Relembrando esses tempos verifico com curiosidade que apesar da distância geográfica o espírito dos Olivais permanecia.
Pela manhã, na praia do Jacinto, um antigo pescador convertido à terciarização, alvo constante da irreverência juvenil (expressão linda para descrever o que lhe fazíamos), iam chegando as famílias com os farnéis preparados para uma jornada completa de sol e mar. Quanto a nós, de chegada mais tardia, ocupávamo-nos em futeboladas ligeiras, campeonatos de frisbee, caça submarina, cartadas e tudo o mais que se faz e não faz, na idade em que o tempo não tem tempo (com “tiradas” destas ainda me arrisco a ser convidado para ghost writer do nosso primeiro ministro quando este resolver escrever as suas Memórias do Cárcere...).
A propósito de caça submarina, recordo um episódio em que andávamos eu e outros oliveiras, perscrutando de arma em riste os mares sesimbrenses em busca de incautos linguados ou chocos distraídos. Naquele dia porém, os marinhos estavam particularmente astutos e não lhes parecia boa ideia passar do estado molhado para o estado grelhado. Decidimos então deslocar-nos para junto das rochas na expectativa de “convencer” algum polvo simpático que por lá andasse dos méritos da vida em terra firme. Debalde…
Um de nós, mais incomodado com o insucesso da pescaria, encontrou, numa subida à superfície para respirar, a solução para a sua frustração.
(façamos uma pausa na nossa empenhada militância em defesa dos animais – não comestíveis, claro…)
Uma pensativa gaivota descansava pacatamente numa rocha quando um arpão de espingarda de caça submarina a atravessou e…

À noite, vivida sempre em bando, “vadiagem” pelas ruas e cafés, como no bairro. Bastante activa e numerosa, era a representação dos Olivais na Confraria do Agrião. Antes da fase “encartada”, contávamos com os prestimosos serviços da empresa de camionagem Covas & Filhos para as nossas deslocações, das poucas que não foi integrada na Roubalheira Nacional, perdão Rodoviária Nacional.

Por lá paravam muitos Bolamas, desde os manos Mateus (disseram-me que são desenhadores num gabinete de arquitectos na Falagueira, mas não confirmei…) até à família “Maracangalha” (sim, também tínhamos amigos cujo pai tinha a sua assinatura nas notas do escudo), passando pelos irmãos Lemos (a um deles, não lhe “perdoo” ter-me iniciados nas visitas à Quinta das Tabuletas, uma semana depois de termos estado juntos um fim de semana em Sesimbra) Lembro-me sempre dele quando oiço dizer que mais vale ser rei por um dia que príncipe a vida toda…. Recordo com estima a família Serôdio, Novos Redondos de boa cepa, com quem partilhei quase todo o meu percurso sesimbrense, e de quem tenho muito boas recordações. Foram muitos aliás, os que partilharam as minhas estórias sesimbrenses e a quem aqui poderia fazer referência.

Da banda sonora destes dias recordo por exemplo os Stones no álbum Tattoo You ou o Patrick Hernandez quando dizia que tinha “nascido para estar vivo”, pensamento que nem a Lili Caneças desdenharia.
por Xai-Xai

Têm visto o Ambrósio?‏

"blue Va Gino was here"


por Bolama