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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Olivais 4 ever



Um motivo improvável trouxe-me a almoçar ao bairro. Tudo com grandes vagares. O ficanço, o deixar-me estar. E na hora de voltar o mesmo caminho, o centro comercial, as traseiras da igreja velha, o café da esquina. Numa mesa cá fora encontro o Lourenço Marques com uns amigos, entre eles uma cara que eu já não via há muito tempo mas que, mesmo com todos os anos passados, me lembrava um convívio um pouco mais próximo nas tardes do olival. Era o Dani, um bafatá radicado na Suíca, um tipo que nos conhece por dentro como nenhum Freud será uma dia capaz de o fazer. Ou seja, um patologista. A certa altura fala-se na Olivesaria e percebemos todos que ele ainda se mantinha um assíduo.
- Mas aquilo já está parado há tanto tempo? - diz o Lourenço Marques, interpretando o sentimento geral . E é aí que o Dani revela o seu segredo:
- Eu ando para trás, ando a ler coisas mais antigas e aquilo liga-me ao bairro.
Nunca me passou pela cabeça que esta folha de couve plasmada no tempo da nossa pasmaceira olivalense ainda rendesse créditos para alguma coisa mas se assim é, pensei, depois de uma hora e tal a descascarmos a árvore das nossas vidas, vou tirar uma foto, esta, e vou empurrar esta pagela para o infinito onde nos colocamos sempre. Como dizia o Miguel Guilherme ao Lourenço Marques quando este foi ver o seu espectáculo com o Bruno Nogueira, Olivais 4 ever.





terça-feira, 25 de maio de 2010

Sons do bairro

No outro dia tirei meio dia de folga, para ir almoçar aos Olivais com a minha mãe e o meu irmão. Ela estava no curso de informática e eu aproveitei para dar uma volta pelo bairro. Bastou-me ouvir aquele sino para perceber que naqueles sinos meio mecânicos tinha ali uma história. Tenho o vício de contar histórias e as histórias que conto são isto: fragmentos de qualquer coisa que têm um princípio, um meio e um fim. Os sinos da igreja nova no meio de uma manhã no bairro para mim são uma história. O bairro do silêncio quieto e vazio, soprado pelo pouco vento que fazia, são também um fragmento narrativo. Tenho este vício. Lembro-me que um dia estava a trabalhar com as crianças no Bairro da Quinta da Calçada e estive entretido uma boa meia hora a inventar uma história a partir de um pequeno pau de madeira que escorria por um pequeno curso de água que a chuva improvisara. Tornou-se num barco. Transformou-se, como nós também nos transformamos com as histórias que contamos. Eu transformo-me pelo menos. E quanto mais as histórias são improváveis, mais me transformam. Por exemplo, aquela mulher que de repente entra na história pelo soar dos seus tacões, é uma pequena história que se cruza com as duas canadianas daquele homem que entra na farmácia. Ou com a bengala daquela mulher que sobe a rua. Quando os vi, pensei logo num reforço da história: e se eu fosse filmar o barulho da bengala? Ou das canadianas? Quando construímos personagens na Escola de Enfermagem há um pequeno exercício que costumo propôr: com os olhos fechados, vão ouvir o andar de cada uma das personagens que criaram. É um momento de uma grande simplicidade narrativa mas capaz de apaixonar aqueles aventureiros que comigo descobrem o território da criação de personagens. Por vezes, quando acabo as minhas aulas e conversamos sobre o trabalho feito, tenho o meu momento de verdadeira emoção: há um ou dois que descobrem o prazer de descobrir no outro uma história, de descobrir o outro enquanto história. Eu sei, este texto parece ter a doença daquela prosa muito excitada sobre objectos que do ponto de vista expressivo são uma verdadeira banalidade. O que é que isso interessa?

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Fado da Olivesaria

E cá está. Não sei se foi por influência cinematográfica do Jorge António que também passou por aquela noite, o filme, mesmo sem orçamento, fez-se. Em MP4, que é o formato da maior parte dos telemóveis e depois baixando o Pazera Free MP4 to Avi Converter 1.2 para podermos trabalhar estes ficheiros no Windows Movie Maker que já vem com o Windows ( Atenção: Quando convertemos para Avi os ficheiros ficaram sem imagem, só com o som. Deve-se converter para a outra opção disponível, MPG. ) . O bloguer está a aceitar até 100 MB por filme, o que é uma margem muito confortável. Fica o desafio para todos. A escrita de palavras nem sempre é o melhor meio de nos reencontrarmos. Peçam as vossas identidades de volta. Timor, queremos ver o Big Ben! Bolama, dá-nos um pouco da ilha de Moçambique, por favor! Rapariga que veio da província, Beira, não nos emprestam um pouco desses lugares bucólicos com oliveiras, nespereiras, alecrim, para refrescarmos os olhos cansados do cimento cinzento?

Os blogues são como os gatos. Vadios e com muitas vidas. As nossas vidas. E nós precisamos de um lugar para nos encontrarmos. Para encontrarmos o bairro, as suas imagens, que nos habitam. Já depois de termos saído da Casa da Mariquinhas fomos encontrar o Barão dos Olivais que quase julgámos tratar-se da verdadeira identidade da misteriosa Maria Correia, pela simpatia com que falou deste espaço. Afinal há mais gente para quem este lugar ainda faz sentido. Vamos lá, malta! Este espaço precisa de nós tanto como nós precisamos dele. Lembram-se quando pela sorrelfa da noite entrávamos pela nossa própria casa como se fossemos assaltantes e íamos buscar as chaves do carro da família, ou comida ao frigorífico, ou cigarros do maço de tabaco dos nossos pais, e descíamos até ao muro da entrada dos nossos prédios para prolongarmos um pouco mais a alegria de estarmos uns com os outros? Vamos fazer isso novamente. Não tenham vergonha! Entrem à sucapa nos quartos dos vossos miúdos e "peçam-lhes emprestados" os telemóveis 3 G com máquina de fotografar e filmar e saiam para a rua para serem os repórteres da Olivesaria. Este pequeno vídeo é apenas uma brincadeira entre amigos que gostam de se rirem uns com os outros e de si mesmos. Há tanta coisa que se pode fazer para trazer para aqui o bairro ao vivo e a cores. Uma entrevista. Uma conversa. O fado da Olivesaria.

domingo, 7 de março de 2010

Quarto com vista para Santiago do Chile


Quando este blogue começou lembro-me da sensação maravilhosa de fazer parte. E fazer parte através de textos, de textículos, coisas que sempre cultivei, ainda era melhor. Olhar para os outros era uma forma de rapidamente contar uma história. Agora tenho a Olivesaria ali no rol dos blogues do dia e vou esperando que alguém escreva alguma coisa. A folha demora a baixar. Dos últimos cinco posts três são meus e quase todos eles espaçados mais ao menos um mês. Nunca mais encontrei o M. nem nunca ele mais me perguntou pelo blogue ali no sitio onde às vezes havia caracóis e oliveiras, tudo no mesmo prato. Também agora que penso nisso seria dificil que ele o perguntasse, se nunca mais o encontrei. Agora tenho menos tempo, digo de mim para mim, para justificar o não vir aqui. Mas é mentira. Os dias continuam a ter as mesmíssimas vinte e quatro horas, as semanas os mesmos sete dias e os meses, trinta e trinta e um dias, conforme. Ainda não senti nenhuma influência da aceleração da rotação da terra provocada pelo terramoto do Chile. O terramoto do Chile, por mais estúpido que seja, fez-me lembrar os Olivais, este quarto, o beliche alemão, que eu partilhava com o meu irmão. As casas eram grandes mas não suficientemente grandes para cada um ter o seu quarto. Ele está agora em Santiago do Chile e eu tenho saudades dele. Apanhou o susto da sua vida. E eu estou para aqui a arranhar a folha. Só para dizer que isto me faz o mesmo sentido do que a primeira vez que aqui vim. Confesso que quando não venho cá passam-se dias em que nem me lembro que isto existe. Como disse, vou olhando a lista dos blogues e se não há actualizações esqueço-o . Mas há um momento em que isto me linka ao real, ao meu real. É quando vou ao bairro. Há qualquer coisa que o ir ao bairro me desperta. Uma vontade de, uma necessidade. Talvez seja a minha percepção de que estou a aproximar-me de um tempo em que já não sou jovem, em que há explicações de mim que andam, aos trambolhões, pelas ruas da minha adolescência. E os Olivais explicam muita coisa em mim. Por outro lado gosto da forma como o meu filho gosta dos Olivais, da casa da avó. Vou passar a ir mais vezes ao bairro.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Pó, poeira, livros, Olivais




Tinha ido ao lançamento do caderno de memórias da Isabel Figueiredo. Na Pó dos Livros. De repente percebo que o dono da livraria era o Jaime, que eu não via há milhares de anos, desde os tempos em que habitámos o mesmo bairro (onde a palavra tinha outros significados que não aquelas partículas que se alojam nas páginas dos livros). Desde as festas da garagem do Johnny, ou da Vila Catió. A fotografia é reles, eu sei. Os combinados, nos telemóveis, fazem de conta de que são um pouco de tudo, não sendo quase nada daquilo que nós esperamos que eles sejam. Mas são o que temos para agarrarmos no real e o trazermos para aqui, dizendo, olhem, é o Jaime. E saudarmos - nós que vimos aqui apalavrarmos a nossa identidade - uma vida ao pé dos livros.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Intervalo para almoço


Telefono para casa. Para falar com a minha mãe. Apeteceu-me. Vou almoçar, antes disso fiz uma pausa, vim até ao Olivesaria, um sentimento de amizade invade-me sempre que aqui venho, amizade e história, a minha história, de repente lembrei-me da minha mãe, por onde parará?, ligo para casa. O atendedor de chamadas é o primeiro a chegar ao telefone. Ligo para o telemóvel. Estou a conduzir, meu filho, diz ela, não é urgente, é só para te dar um beijinho, respondo, para te dizer que te amo, penso de mim para mim, que preciso da minha árvore, o fim do século XX, que acabou, soube pelo JPT, ainda não me fez o homem-robot que antevi ser quando chegasse ao ano 2000.

Ocorrem-me sabores entretanto. A tortilha espanhola que a minha mãe fazia tão bem. A sopa de feijão vermelho com couve portuguesa. O empadão de carne, com a pele a estalar. O souflé de peixe. E, para lá dos sabores, o tempo. O que de mais importante me lembro é a sensação do tempo a abrir-se, a espraiar-se, a lentificar-se. Como este pequeno devaneio.
Ainda sou o mesmo, um tipo que chega ao momento de ir almoçar e que, enquanto fecha o expediente do serviço, se apercebe que, por maior romantismo que ponha na forma como olha o seu dia-a-dia, se tornou naquele burocrata que ridicularizava aos seus vinte anos. E que depois levanta a cabeça, como a avestruz, agarrando o gôle de ar que, durante todo o dia, fará a diferença. Como diz o , descubro uma nova e não catalogada forma de heroísmo, sobreviver à minha ideia juvenil de mundo. E é assim, com a cabeça levemente inclinada sobre o olival, que saio, estupidamente feliz, reizinho do meu mundo, para o lado de fora deste teatro onde quase nada do que é, parece.

domingo, 25 de outubro de 2009

A menina do cão do fiat



Não tivesse vindo cá abaixo buscar as compras que a minha mãe deixara no carro e provavelmente nem repararia naquela inscrição feita na parede do meu antigo prédio, na rua cidade João Belo. Estava noite, o que para além de dificultar a própria memória fotográfica também acrescentou algo de misterioso à mensagem que se ligou, invisivelmente, a mim, ao modo platónico como vivi a minha adolescência nos Olivais. Espero - para reconforto do anónimo apaixonado - que a rapariga do cão do fiat se tenha enternecido tanto com a mensagem como eu.
Não era o Amo-te Daniela, que tantas vezes encontramos grafitado ou desenhado nas paredes, sem um pingo de sensibilidade, de reserva, com aquele desvairio adolescente que faz com que pensemos que as pessoas a quem dizemos que amamos são nossa posse. Não, quem escreveu aquilo ama na sombra. Nem nunca se aproximou o suficiente do objecto da sua paixão. Se o tivesse feito, teria, num dia de sorte, ouvido o seu nome gritado de uma janela, de uma varanda, de um extremo da rua. Sempre se falou alto nos Olivais. Não, o amante é sibilino. Esconde-se, na noite, nas tardes, nas manhãs. Vê-a partir e regressar todos os dias, no seu fiat. Não é um wolksvagen, um opel, um citroen, um peugeot. É um fiat, italiano, temperamental, romântico. A menina do fiat faz parte de um universo sentimental, eivado de romantismo. Ao escrever isto, é como se eu mesmo estivesse a espiar esta história, esta pequena história de amor. Ele, o amante da menina do fiat, espera que ela vá passear o cão, acompanha-a. O que o revela na paisagem humana do bairro. Se o lugar ainda mantém as características daquele onde vivi a adolescência, há dois grandes tipos de pinga-amores que contribuem para o exarcebar amoroso que sempre caracterizou a vida entre oliveiras. Aqueles que, como eu - já me denunciei atrás, agora é tarde para desfazer- que, na sua timidez e acabrunhamento se escondem entre a sombra para ficar ali a ver as horas do seu tempo, do seu enamoramento. E os que - como por exemplo o Bafatá - tentariam arranjar logo um canídeo (comprassem-no, pedissem-no emprestado, atassem uma corda como coleira ao primeiro vadio que encontrassem), para poderem entabular uma conversa que, como um cerco, faria com que a menina do fiat passasse a ser mais uma letra no abecedário dos nossos rudolfos valentinos. Não, o amante inconfessável da menina do cão do fiat, treme só de pensar que a sua amada possa descobrir quem ele é, a sua identidade. No seu anonimato não pode no entanto deixar de lhe dizer que a ama. Ele quer que ela se sinta amada. Que saiba que é amada. É assim a imensa generosidade da platonia: consome-se num ardor, numa incandescência amorosa que não exige nada em troca, mas que tem de partilhar a sua existência apaixonada. E é como se sussurasse: menina, menina do cão, menina do fiat. Para que ela, todos os dias quando sair ou regressar a casa, possa saber que há alguém, tão doce que trata a rapariga por menina, que a ama sem pedir nada em troca. A quem basta apenas o desfiar da página de um romance vivo, feito de passeios com o cão ou voltas no fiat. É pouco? Não, é tudo. A menina do cão do fiat e o seu secreto amante estão à altura das mais altas tradições romanescas do bairro.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Venha de lá esse verão, veremos nele a nossa vida

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sexta-feira, 17 de julho de 2009

Olhar o rio

Sinto-me muitas vezes um privilegiado por viver numa cidade que tem, mesmo à mão de semear, um rio como o Tejo . Para mim um dia, mesmo o pior, reabilita-se com um passeio junto ao rio ou numa daquelas esplanadas que a cidade inventou para o admirar. O Adamastor, o Noobai, a Esplanada da Graça, as Docas, Belém, Terreiro do Paço, Jardins do Tabaco e das Descobertas, o terraço do Hotel do Bairro Alto, Cacilhas, são apenas alguns dos oráculos da minha devoção. Gosto também do passeio pela marginal até Cascais. Desde a adolescência, ainda no carro-família, com os meus irmãos, lembro-me da face ainda marcada pelo sal e o vento a bater, a refrescar-nos. É-me renovadamente estranha a imagem dos barcos a balouçarem na ondulação ténue. Parecem-me ilhas solitárias ali penduradas no território líquido. Imagino sempre, no instante em que este relance de paisagem se atravessa no olhar, que vou numa destas pequenas embarcações. Amo a noite sobre a água, o cheiro da maresia, o barulho das ondas. Não sei bem porquê. Nunca fui grande nadador, nunca velejei. Nem posso colocar na minha carta de navegação - por mais prazer que me tenham dado - as horas que gastei nas viagens diárias de cacilheiro que fazia quando morei do outro lado do rio,. Desde há uns anos que todas as casas onde moro têm, por mais pequeno que seja, um altar onde me entrego a esta sedução pelo Rio Tejo. O mais engraçado é que quase nunca dei pelo rio nos Olivais e também o tinha sempre na minha varanda, no lad0 esquerdo, ali para os lados do Ralis, no enfiamento da ponte Vasco da Gama. Nos Olivais vivi muito e durante bastante tempo. Não é dele no entanto este delírio pelo rio.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Grande Tuga das Neves


Quando eu era miúdo tinha muitas coisas como certas. Uma delas era a chegada no dia dos meus anos de um postal de Elvas, do avó Figueira, que começava invariávelmente por um Salvé, e acabava, nos primeiros anos, numa nota vermelha de cinquenta paus e depois, em anos mais avançados, numa azul, uma centenária, como lhe chamava. Devo confessar que sempre dei melhor serventia às notas do que àquele Salvé, que associava sempre a coisa antiga, adequada por isso ao que eu esperava do meu avô Francisco António. Há pouco no entanto, à procura de uma foto de um tuga célebre, grande mandarim das neves, descendo implacavelmente com a sua companheira e com o Barão a grande descida de la Sierra, percebi que estas palavras antigas ganharam algum significado com o peso do tempo. Salvar o dia, e assim, salvando cada dia, estaremos também mais próximos de salvar também a vida dos que queremos, dos que nos são queridos, dos nossos amigos. Não deixa de ser paradoxal que eu me predisponha a saudar um amigo com um salvé precisamente na altura em que a curva da idade me afastou totalmente da ideia de salvação. Que se lixe! O que nos salva, o que nos salva hoje, e já nos salvava à trinta e poucos anos quando nos conhecemos, é também a amizade, a presença, do outro lado da esquina, do outro lado do blogue, do facebok, do telefone, onde for. Muitas vezes quando olho para as páginas paradas deste blogue, vejo as rotativas da vida a andar de trás para a frente - que é para onde elas devem andar quando querem ser capazes de escrever sobre a nossa vida - e dou-me por muito feliz por poder ter o privilégio de brindar a um amigo, de brindar num amigo toda a festa que é viver, construir, reconstruir, fazer de novo.

terça-feira, 24 de março de 2009

Na frente ocidental nada de novo

"Eu continuo a acreditar nesse mundo impossível, sem ódio, sem rancor, sem ciúme, sem morte, sem capitalismo, sem diferenças sociais nem raciais, sem armas, onde o amor ao próximo é possível. "




De repente duas circunstâncias destrançaram-se e deram-me um pequeno espaço para vir à blogosfera. Penso em ir ao meu blogue. Mas depois algo me trouxe ao Olivesaria. Acho que foi, como à Maria Correia - que belo texto! - esta Primavera aos bocados. Bocado lua, estrela, cometa, bocado noite amena, azul tranquila, bocado vontade de fazer amor, de destapar a pele, de espreguiçar o corpo, bocado luz sobre a estátua do Pessoa ali na Brasileira, bocado cámones a descerem e a subirem a Rua Garret. Ou, para voltarmos novamente ao bairro, bocado manhã ensolarada no antigo café do tó, já este sábado, bocado desejo de voltar à escrita, à partilha, aqui.




Olho a imensa bondade que se despreende desta crença num mundo onde o amor ao próximo é possível e dou por mim a fazer contas àquilo em que (não) acredito e a perceber que a idade agudizou um problema que sempre esteve na minha relação com o mundo: a minha razão anda vezes demais desavinda com a minha emoção. E como os meus pensamentos não conseguem fazer as pazes com o mundo - é uma zanga que o tempo aprofunda - cresce dentro de mim um libertário, um anarquista intransigente, quase panfletário. Também, porque ao mesmo tempo sinto a necessidade - como se fosse uma sede, uma fome - de me pacificar interiormente, arranjei um estratagema, ou uma estratégia, talvez um truque: proibi a minha vida de (des) acreditar. De (des) esperar.




Não acredito mais. Esse é o tributo que a minha paixão, a minha necessidade de me apaixonar, de viver apaixonadamente, paga à minha razão. Mas o meu pensamento também tem contas a prestar à minha necessidade de me emocionar. Proibi-o, mais à minha linguagem, de expressar a minha descrença. E arranjei mais uma estratégia, um estratagema, sem dúvida, um truque: criei um lugar dentro da minha memória, e a minha memória é um pedaço do meu corpo, onde sonho com um "mundo sem ódio, sem rancor, sem ciúme, sem morte, sem capitalismo, sem diferenças sociais nem raciais, sem armas, onde o amor ao próximo é possível".
Há uma coisa que o tempo, a idade - essa maldita que tanto nos rouba de modo irremediável -nos devolve: o sonho, como acção de re-existência. Não apenas o sonho, o que resulta da acção de sonharmos mas o próprio sonhar enquanto acto, gesto, atitude. O sonhar enquanto tempo, a duração, o tempo que dura o tempo em que estamos de olhos virados para as nossas paisagens interiores. O sonho não é uma mera rima fácil do cançonetismo kitsch. É uma fabulosa actividade física, psíquica. Sonhamos sem nenhuma justificação. Apenas para alimentarmos os nossos tecidos moleculares, a nossa estrutura atómica. Para não sermos destruídos pela nossa incredulidade crescente.
Olhem a pessoa que sonha enquanto sonha: o mundo está em agitação permanente, sempre a vender-nos a sua urgência, a sua prepotência, parece impossível afastarmo-nos dele, libertarmo-nos do estado de vígilia, senão para aquele desligamento obrigatório, diário, a que a máquina nos obriga, o sono. No entanto esta pessoa suspende esta arrogância mundial e avança no pequeno teatro do mundo que é a sua vida e procura um lugar onde o seu corpo físico se possa desligar momentaneamente do que o cerca. Procura uma cadeira, um sofá, uma cama, uma pedra do passeio, um bocado de relva. Senta-se, ou deita-se ou recosta-se. Esta pessoa que sonha, que se entrega assim ao acto de sonhar não sabe que é uma pequena heroina. Está tão habituada a fazê-lo que nem se dá conta de que milhões e milhões de pessoas já não conseguem sonhar senão quando em estado inconsciente, no repouso de uma sesta, de um sono. É um breve momento. Fecha os olhos ligando-se ao enorme banco de imagens que, frame a frame, cabe numa vida. Depois, mais para a frente, há-de abrir os olhos e, sem se dar conta, já não é o mesmo homem ou a mesma mulher. Levanta-se, caminha por entre os prédios, por uma frente ocidental onde nada de novo acontece, mas já não é nem a mesma mulher nem o mesmo homem.
Também nós. Também nós somos o que sonhamos, as nossas imagens anteriores. O tempo que dedicamos a constituir, a partilhar imagens. Em pixels ou não. As palavras são imagens de um pensamento articulado. Aqui estamos nós em comum porque temos as mesmas imagens na cabeça: um grupo de adolescentes de calças surradas a sairem dos prédios, a colorirem as ruas, a darem vez e razão à relva verde, à sombra da tarde. Isso não foi ontem, nem antes, é hoje, é agora, no momento em que fecho os olhos e enalteço a minha molécula que saúda o verde, a primavera. Como espero o seja ainda depois e amanhã, quando este prazer de correr no parque se estender àquele que espera de mim um incentivo, um olhar, um exemplo. É por isso que volto, com ele pela mão, uma vez mais a esta frente ocidental onde nada de novo surge. E que me comovo quando sinto entre os dedos os seus dedos e dentro deles as imagens que circulam - desde a play station portátil até este Vale do Silêncio - livres entre nós.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Chove e cá dentro as nossas moléculas

Falta carne, disse o Fulacunda ao terminar. E eu já não sei se ela nos falta, ou se nos sobra. Às vezes, nesta dimensão de homem-écran reparo que, sem o constrangimento da carne poderia viver mil anos assim, ligado ao espelho mágico, primeiro da tv, depois do portátil. Ou até da minha janela. Principalmente quando chove e a vida lá fora fica mais forte, mais acentuada. Não fosse a carne, as suas necessidades e exigências - que não apenas as maçãs que outrora colocávamos nos bolsos para aguentar até ao lanche - poderíamos viver mil anos assim. Alimentados por uma sonda, por um chip. Um dia, com o hábito e a persistência, da mesma forma que fomos evoluindo no circo das espécies, talvez passemos ao degrau seguinte, o homo sapiens máquina. Não sei, não sabemos. Sei apenas, como o Fula, que falta - ou sobra - carne na nossa vida. É por isso que eu gosto do frio, do frio que por aí anda. Ele atiça a carne que há em nós, agudiza-a, urgencia-a até. Não quero ser revivalista. Escrevo cuidadosamente porque não quero ser revivalista. Eu sou do presente e quando não o puder ser, porque às vezes esta carne não nos deixa ser do presente, serei do futuro. Nunca do passado. Não há nada no passado que me arraste. Ou que me guie. Tenho por isso pudor na palavra e no verbo revivalista. Até porque aquilo que posso dizer a seguir é, nesse domínio, ambíguo: tenho quarenta e seis anos e deles trinta e cinco foram-no na convicção exuberante da presença, e a presença é essa apoteose da carne. Só os dez últimos foram consumidos no festival inacreditável do eu-digital, os sites, os blogues, os chats. Mudaram muito em mim estes dez anos, claro. Mudaram tanto que por vezes tenho dificuldade em conectar-me comigo mesmo. Mas a minha pele, sinto-o, ainda é de um homem do aqui e agora.
Ontem estávamos em casa do Xai-Xai para ver as fotos da última excursão, a Sevilha. Antes do mais, o que vou a dizer não tem nada a ver com os pixels: acho até que o digital nos trata bem da vaidade. Nota-se que já não somos os que tocavam às campainhas das portas, somos assumidamente os dos nicknames, mas ou porque nos habituámos às falhas capilares, ou porque elas convivem melhor connosco, o digital trata-nos com delicadeza os avanços do tempo.
Estávamos portanto em casa do Xai-Xai. O Fula, o Benguela, eu, todos em duplo, poupam-se os nomes. E agora ao ler este texto do Fula é ainda mais claro o que senti quando lá estávamos: que entre o principio dos anos sessenta, quando nascemos, e o fim da primeira década do milénio, onde estamos, o paradigma da relação alterou-se completamente, deixando de estar sujeito aos constrangimentos da presença. Não é preciso avançar na tese deste argumento, todos nós conhecemos por dentro esta realidade. A minha mãe tornou-se há dias uma mãe skype e hoje já reza o terço com os seus irmãos pela internet. As relações ampliam-se na multiplicação de aquis e agoras que podem estar presentes num único acto comunicacional.
Falta, ou sobra, carne, dependendo do ponte vista. Aos nossos filhos, por exemplo, já sobra a carne que a nós, nos falta. Era aqui que eu temia a possível ambiguidade da palavra revivalista: sinto necessidade de ser leal à minha molécula, aos meus átomos que, como já escrevi, foram criados na apoteose da presença. As minhas moléculas - o meu corpo atómico- estão sempre em mutação, os tecidos degeneram-se, regeneram-se, mas não o fazem todos por igual. Ainda devo ter dentro de mim algumas moléculas que assistiram comigo à descida de Neil Amstrong nos territórios lunares. Não serão muitas, mas existem. Por isso, sem nenhum revivalismo, confesso esta necessidade de ser leal aos milhões de moléculas que comigo se construíram no face a face, no momento único, intransitivo, da relação. Naquela sala do Xai-Xai percebi que um grupo pode ser isso: a partilha dessa lealdade às nossas moléculas, àquelas que viram a luz do dia quando aquilo que valorizava a relação era - como escreveu o Fula- estar lá, na pressa, na urgência de estar, do corre corre para quê?, para nada, para ficar a gastar solas contra as pedras ou os fundilhos das calças nos muros. Ou seja, e não sei se isto é trágico ou extremamente belo, aquela vulgata mil vezes repetida de "no nosso tempo" é falsa, ou se não é falsa não consegue falar com justiça da nossa vida, de nós. Não há o "nosso tempo". Há apenas lealdade às nossas moléculas. A todas. Aquelas que nos fazem sentarmos-nos aqui, a escrever digitalmente, na ausência, e as outras, as que nos fazem correr os Olivais à procura de um café aberto no dia de Natal. O nosso tempo só morre quando, por falta de quorum molecular - ou por um qualquer distúrbio representativo que por vezes também ocorre na nossa estrutura atómica - desistimos das formas de vida que nos trouxeram até aqui. E não há dúvida, penso-o enquanto estamos na sala do Xai-Xai e olho estas oliveiras plantadas entre os sofás, chove cada vez mais lá fora, em grupo ficamos mais fortes. Diria mesmo, mais bonitos.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Em busca do arco-íris


Ao chegarmos à rotunda do relógio encontrámos, eu e o Apicultor, um arco-íris muito forte, quebrado em dois. Viemos encontrar uma das metades já dentro do bairro. Fez-nos bem este gesto de perseguir um arco-íris. Apetece-ne colocá-lo como expressão dos melhores desejos para o ano que começa.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Oa amigos

Haverei de escrever sobre isto, os amigos, penso enquanto o carro roda a alta velocidade na direcção Sevilha-Lisboa. Desta vez vamos por baixo, pelo sul, um caminho que eu fiz a primeira vez imaginariamente, quando resolvia o itinerário de uma personagem, a Esmeralda, que durante alguns anos fez a sua travessia do inferno pelos bares de alterne à beira da estrada, entre Huelva e Granada. É o Xai-Xai que conduz. Pelo espelho retrovisor olho-o e vou-me divertindo a tentar descobrir o meu amigo de primeira adolescência. Tinha o cabelo mais comprido, eu sei. Era mais doce também, éramos todos. Ainda não tinhamos tantos tiques, tantos trejeitos, tantos gestos repetidos. Mas parece-me o mesmo, pelo menos fisicamente, pelo menos no pequeno recorte de gente que um espelho retrovisor é capaz de fazer. O seu cabelo escuro, sem entradas nem madeixas brancas ajuda. É claro que mais tarde, quando ele puser os óculos eu vou pensar, ele vai ser o que, de todos, vai ficar mais parecido com o seu pai, mas agora, sem lentes, naquele pedaço de rosto, parece-me tão igual ao que ele era. Ao seu lado está a C. a sua mulher e ao meu lado a D., a minha namorada, e elas, sem sequer precisarem de abrir a boca contam de nós a história que falta mas naquele momento em que o olho é como se a mim mesmo se me visse naquilo que eu também fui e cuja narrativa fui esquecendo. Quando vejo nele, quando consigo ver nele o Xai-Xai de há trinta anos, e porque não me vejo a mim senão através desta projecção, é também a mim que me vejo, há trinta anos. Vou assim, de Sevilha a Lisboa numa viagem que é mais do que isso, uma peregrinação pelas minhas memórias, por memórias que eu não sabia existirem. O leite nido com nesquik arranjado pela Urânia, a empregada do Xai. Aqueles lanches latagões do ZAC que queria crescer, ser forte e robusto. Os fins de tarde, até, do andar debaixo algum dos meus irmãos me virem chamar para jantar - e eu hoje já sei o que o meu filho passa quando eu tenho de interromper as suas brincadeiras com os amigos para o chamar para jantar - e dos quais já não recordo nada senão esse sentimento de conforto que tinha. O pai do Xai que chegava e que trazia sempre fato e gravata e uma mala preta de negócios. As escavações de fósseis no termo do prédio. As tardes de futebol. A certa altura eu e o Xai declinamos em voz alta os nomes das equipas, dos craques. Não tenho nostalgia pelos lugares perdidos e a infância será sempre um lugar perdido. Tenho algum desconsolo porque por vezes me parece que o céu era mais azul, que o sol e o próprio tempo fiavam de outra maneira, mas não tenho nostalgia. E o mais curioso de tudo isto: ao olhar os objectivos deste blogue, o destravar do rememorejar, poder-se-ía pensar que o que verdadeiramente nos une é uma espécie de regresso ao passado. E não é, descubro naquele recorte de rosto que o espelho retrovisor consegue capturar, como já o tinha intuído no bem estar com que me sentava àquelas mesas de pinchos e tapas, aquilo que verdadeiramente nos une, e o Fula disse-o dois ou três posts abaixo, é a percepção daquilo que nunca saberíamos entender há cerca de trinta anos: que a diferença pode aproximar. Vejo-me neles, neste pequeno grupo de ciclistas para a fotografia das ruas de Sevilha, no gosto de acamaradar, de descobrir, de partilhar. A diferença e o tempo trataram-nos bem, entretanto.

Apontamentos de Sevilha

A certa altura os nossos passos levaram-nos àquela igreja, da qual já não recordo o nome, que tinha um monumental altar, todo encrastado em talha, do chão até ao tecto. Era monumental. Espalhámo-nos pela ala lateral para não interferirmos com o ofício religioso que decorria. Na zona central da igreja, no púlpito, um padre falava aos seus fiéis, muito poucos. Aliás a dimensão do espaço, o gigantismo da sua construção, da pedra, da talha e de todos os ornamentos que mais pareciam fazer desaparecer a pequena legião de paroquianos que escutavam o sermão, já de si introduzia uma nota dissonante: o padre perorava sobre o peso dos objectos na nossa vida, da manifestação apoteótica do material, e fazia-o num lugar que era por si próprio a exaltação e a exarcerbação da ostentação e da conversão das paisagens imateriais ao domínio do objecto, da matéria.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A propósito do Urié (Arié, Sr Arié ou Bigó) , deixo uma fala de um texto dramático que evocava este personagem (e também o Ai-Ai). A peça na sua totalidade nunca foi levada à cena mas uma parte, "Urié e Rouxinol, uma história de amor", foi representada, por mim e pela Rosário Figueiral, com encenação de Jorge António (e participação ao vivo do saxofonista João Cabrita) no salão da Igreja Nova dos Olivais. Deixo-o com um desafio aos ases do pincel que por aqui andam: uma ilustração com um dos nossos mais célebres personagens, não vinha mesmo a calhar? Ou sobre o Ai-Ai?

3ª Cena
Urié parte o seu “carro” *



(Urié entra com a árvore. Acelera. Deixa o motor ir abaixo. Empurra a árvore)


Urié A-ora é q' é!(Empurrou novamente a árvore. Dá balanço. Movimentou a perna como se tivesse a dar ao pedal de uma motoreta. O motor começou a trabalhar. Rouxinol riu-se. Ele interrompeu o barulho e voltou-se para ela) Esta-ermo! Por ausa de i eixei o vum-vum i abacho! Nã osso alar e con-uzir ao memo empo! Hã!Hã! Ensas o ê?! O mo-mo -or é a-ui ( bateu com a palma da mão na garganta). É a-ui! A-ora empu- a co-igo! (Rouxinol empurrou-a a ele e ele empurrou o ramo. O motor começou a trabalhar) Vum-Vum! A-da! ‘Alta cá a entro! (Rouxinol sentou-se no ramo. Deram dois ou três passos e o ramo partiu-se) E-a! E-a! E-a! T-agou-se! Tá t-agado! Abes uanto ustou u-a áquina estas! Sto é u-a á-vo-e! Se ou a-ancar ais á-vo-es ó ale ou p-eso! Ou p-eso! O uarda á m' a-isou!(Rouxinol afastou-se, ele agarrou no ramo partido) O eu ca-o! (virou-se para Rouxinol) Ão abe o é um ca-o! Isica sê oisa gande! (Atirou o pau fora) Ma-ia da g-andeza! Ma-ia da g-andeza! Ma-ia de oisa g-ande ! (Deu de caras com um caixote de lixo, dos verdes, com rodinhas) Ó á! O á! (Correu para ele. Agarra na tampa. Fecha-a. Abre-a. Fecha-a) Tem ca-ô ! Tem ca-ô e o-ta ba-agens! Ganda ca-o! (Dançou desajeitadamente. Rouxinol que estava escondida apareceu e começou aos berros de alegria. Deitou o caixote do lixo no chão) G-anda omba! G-anda omba! A-ece memo um ca-o a sé-io! (Mirou-o, alargando os braços como se estivesse a tirar-lhe as medidas. Foi buscar um papel de jornal. Tirou uns pedaços e colou-os com cuspo na parte da frente do caixote simulando faróis) Té dá pá á-dá á oite! (Olhou para Rouxinol) Éres ár uma ólta! U-a g-anda ólta? (Rouxinol concorda e vai a entrar no carro) E-ra!E-ra! Nã ode er a-im! Em he er omo o inema! (Esticou-lhe o braço e com o maior dos cavalheirismos ela entrou para dentro. Depois fechou a tampa.) E-u-ra-te! ( Rouxinol não conseguiu estar lá dentro com o cheirete do caixote do lixo. Abre a tampa) À êm! É o eiro de er ovo! Ab-e a ca-ota!

(Deambulam pelo espaço. A luz dirige-se à casa na árvore, ao piso superior)

3ª cena (tradução)
Urié
Agora é que é!(Empurrou novamente a árvore. Dá balanço. Movimentou a perna como se tivesse a dar ao pedal de uma motoreta. O motor começou a trabalhar. Rouxinol riu-se. Ele interrompeu o barulho e voltou-se para ela) Estafermo! Por tua causa deixei brum-brum ir abaixo! Não posso falar e conduzir ao memo tempo! Hã! Hã! Pensas o quê?! O motor é aqui ( bateu com a palma da mão na garganta). É aqui! Agora empurra comigo! (Rouxinol empurrou-a a ele e ele empurrou o ramo. O motor começou a trabalhar) Brum-Brum! Anda! Salta cá para dentro! (Rouxinol sentou-se no ramo. Deram dois ou três passos e o ramo partiu-se) Ena! Ena! Ena! Estragou-se! Está estragado! Sabes quanto custou uma máquina destas! Isto é uma árvore! Se vou arrancar mais árvores ao Vale vou preso! Vou preso! O guarda já me avisou!(Rouxinol afastou-se, ele agarrou no ramo partido) O meu carro! (virou-se para Rouxinol) Não sabe o que é um carro! Precisa ser coisa grande! (Atirou o pau fora) Mania da grandeza! Mania da grandeza! Mania de coisa grande ! (Deu de caras com um caixote de lixo, dos verdes, com rodinhas) Olá! Olá! (Correu para ele. Agarra na tampa. Fecha-a. Abre-a. Fecha-a) Tem capô ! Tem capô e porta bagagens! Grande carro! (Dançou desajeitadamente. Rouxinol que estava escondida apareceu e começou aos berros de alegria. Deitou o caixote do lixo no chão) Grande bomba! Grande bomba! Parece mesmo um carro a sério! (Mirou-o, alargando os braços como se estivesse a tirar-lhe as medidas. Foi buscar um papel de jornal. Tirou uns pedaços e colou-os com cuspo na parte da frente do caixote (que está deitado, portanto a parte inferior) simulando faróis) Até dá para andar à noite! (Olhou para Rouxinol) Queres dar uma volta! Uma grande volta? (Rouxinol disse que sim e vai a entrar no carro) Entra! Entra! Não pode ser assim! Tem que ser como no cinema!(Esticou-lhe o braço e com o maior dos cavalheirismos ela entrou para dentro. Depois fechou a tampa.) Segura-te! ( Rouxinol não conseguiu estar lá dentro com o cheirete do caixote do lixo. Abre a tampa) Está bem! É o cheiro de ser novo! Abre a capota!

* Excerto da peça "É para os putos que não querem comer a sopa".

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Domingo de Novembro

Viemos ver a avó nos Olivais. Depois, caía a noite, apeteceu-me descer até ao Centro Comercial. Passámos pela Escola Básica 2+3 dos Olivais, a minha antiga Damião de Góis.
- Esta foi a primeira escola onde eu andei quando viemos para Lisboa.
-E era assim?
- Não. Eram filas de barracões. Quando chegarmos a casa vou-te mostrar as fotografias da escola (no Olivesaria, claro!).
E continuamos a andar, enquanto lhe falo dos lugares onde brincava. As vivendas onde moravam os primos da Bafatá. Há uma espécie de passagem de testemunho que nem o é. Testemunho de quê? Eu tinha quase o tamanho dele, os Olivais eram enormes, o contraste com a paisagem campestre, aquele lugarejo de onde se avistava o grande convento, ele pergunta-me olhando o grande centro comercial,
isto tudo já cá estava também?
não, isto veio depois, olha, ainda estão a construir.
há pouco, quando saímos de casa passámos pelas tijoleiras, muitos carros parados à frente - onde estão os polidores de esquinas agora?, pergunto-me, era sempre com um pouco de receio que enchía o passo em direcção ao ezequiel - dei conta da quantidade de anos que vivemos entretanto, construimos as nossas casas, criámos os nossos filhos, eu durante muitos anos não envelheci, mantinha, apesar de algum cansaço, do desgaste do tabaco, aquela capacidade de fechar os olhos e de fazer um raccord directo a qualquer zona do passado, agora não, agora já não vou lá, falta-me o fôlego, sei que vivi por aqui mas isso é quase que uma história, uma ficção, que construí e conto a mim mesmo, ainda há pouco ao descer no elevador cruzei-me com a teresa do marco, abri o sorriso meio automaticamente e depois percebi quem era, eu já não a devia ver há uns vinte anos, não conheço nenhuma das pessoas que agora passeia cães na cidade João Belo e isso diz tudo, os donos dos cães são uma marca resiliente ao esquecimento, já ao dobrar das tijoleiras, cruzo-me com a mãe da margarida e do diogo, olá, boa noite, digo eu jovialmente, ela não me reconhece, sauda-me rapidamente, está escuro, apercebo-me que os olivais têm o tamanho da mobilidade e da segurança de cada um, para a minha mãe os olivais também são enormes, estou entre dois lugares, os olivais da minha mãe, da casa materna, e os olivais que eu vou mostrando ao meu filho enquanto lhe digo, olha era aqui que o pai fazia isto, ou aquilo. Não há luz no rés do chão da praceta aleixo-corte real, penso, antes de entrar no centro e de me apagar eu próprio na luminosidade forte do festim das lojas, do compra-compra.

sábado, 1 de novembro de 2008

Por esses Olivais adentro, vamos


No outro dia quando fui visitar o meu manuvelho ao hospital e a meio do caminho comecei a chorar, sem outra razão que não fosse a de que desde que ele apanhou febre tifóide em pequeno um seu simples ataque de espirros me provoca transbordo da bolsa lacrimal, eu percebi que não há nenhuma tecnologia, nenhum upgrade de hard ou soft ware que me desligue da minha árvore, das minhas árvores, uma figueira e uma nogueira, as duas atreladas uma à outra. Não há duas sem três: também esta oliveira, por vezes carregada, outras mais vazia, onde nos (des) encontramos.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A pasta escondida


O pretexto foi a grappa mas aquela pasta acabou por inadvertidamente tornar-se a estrela da noite. É que as paredes da casa denunciavam a arte, o traço, o olhar. Vasculhámos à procura de sinais, rastos da evidência de uma expressão mais própria. Ele, o artista, tímido - tão acanhado que é impossível denunciá-lo - lá condescendeu em abrir o espólio. E lá de dentro saltaram esboços, cores, formas mais ou menos acabadas que nos seduziam.

Concentração máxima