quinta-feira, 12 de março de 2009

YOU CAN'T ALWAYS GET WHAT YOU WANT

De: Maria Correia
Hoje passei pelos Olivais. Nada de novo, na frente ocidental, com excepção da grande muralha de betão que me parece finalmente completamente construída, enorme, massa, volume, sem respiração e cortando a respiração do bairro. Sou actualmente uma mera visitante esporádica do bairro, sinto-o por vezes mais aqui pela olivesaria--as recordações são vivas--do que quando por lá passo. Ontem passei também pela Olivesaria, como passara há uns dias, há umas semanas; também nada de novo na frente ocidental. Apenas um silêncio com nomes, num espaço que já vi mais movimentado. Hoje, ao passar pelos Olivais, e como é Primavera, lembrei-me como, na minha adolescência e na minha juventude, ( em anos, não em espírito) aqueles relvados e pracetas, aquelas escadas e escadinhas, nesta altura do ano, se encontravam cheios de gente, muitos jovens, sentados na relva, caminhando pelo bairro em direcção à casa de um amigo qualquer, calças de ganga velhinhas porque eram velhas e não por serem compradas rasgadas de propósito nas lojas da moda dos centros comerciais, camisas de xadrez, peças de roupa que na altura ainda não se chamavam bem t-shirts, belos jovens e belas jovens de cabelos compridos e contestação ao canto da boca, cigarros de erva sonhadores nas mãos que, na altura, tocavam o céu azul, um céu onde o amor eram pássaros azuis num campo verde no alto da madrugada. Ocorreu-me automaticamente a frase precisa e incisiva do Mick Jagger, YOU CAN'T ALWAYS GET WHAT YOU WANT, cantada há trinta anos e continuada a cantar-se por todo o mundo ainda hoje, mas penso que mais baixo, desde que o Lawrence Kasdan a imprimiu para sempre como tema de fundo no filme carismático sobre a perda da inocência da era hippie e o começo da era yuppie, mais egoísta e virada para valores exactamente contrários aos da geração anterior. YOU CAN'T ALWAYS GET WHAT YOU WANT. O Alex suicidou-se e Kasdan dá a entender subliminarmente que o terá feito devido à «insatisfaction», a mesma coisa que o Jagger dizia no «I can't get no...», ou seja, uma mal aise, uma insatisfação criada no fundo do ser devido ao confronto com a realidade do mundo do capitalismo duro e cru, em que já não havia lugar para a tal inocência que acreditava ser possível viver-se de um outro modo. YOU CAN'T ALWAYS GET WHAT YOU WANT. É bem verdade que alguns dos valores dessa geração da INOCÊNCIA, no sentido mais puro do Homem natural rousseauniano, foram coados para a sociedade actual, a preocupação com a natureza, (mas depois o desprezo pelo protocolo de Kioto por parte das grandes potências) a ecologia ( mas depois constroem-se muralhas de betão), o misticismo (mas depois surgem-nos para aí bruxos capitalistas a torto e a direito), as organizações de solidariedade social, as ONG's (mas continuamos a ver metade do mundo a morrer de fome), o respeito e o amor pelo nosso semelhante (mas depois surgem guerras e guantánamos e gangs de bairro, cada vez mais violentos)...YOU CAN'T ALWAYS GET WHAT YOU WANT...NO, YOU CAN'T ALWAYS GET WHAT YOU WANT...No fundo, a Idade da Inocência ( outro grande filme, mas de Scorsese), perdeu-se. Perdeu-se? Eu continuo a acreditar nesse mundo impossível, sem ódio, sem rancor, sem ciúme, sem morte, sem capitalismo, sem diferenças sociais nem raciais, sem armas, onde o amor ao próximo é possível. Continuo a acreditar contra tudo e contra todos os que dizem que não, que blabla, que isso é uma utopia, que não existe, que é coisa de miúdos barbudos de uma geração perdida, que se drogava e andava de terra em terra, que escreveu livros e poesia e temas musicais eternos, que vivia em comunidades e que depois chegou à conclusão que isso não era possível, que o Homem é um ser egoísta por natureza, guerreiro por natureza, que mata por prazer, enfim, tudo o que diz para aí e se tenta inculcar no espirito das criancinhas enquanto as abafam com computadores e telemóveis e bonecos robô que ladram como os cães verdadeiros, ou fingem que ladram. YOU CAN'T ALWAYS GET WHAT YOU WANT. O Alex suicidou-se pois não foi capaz de aguentar a pressão do malaise d'être e todos nós conhecemos, ou quase todos, um Alex. Mas a morte de Alex não foi em vão nem impune. Despoletou todo um antigo espírito solidário entre aquele grupo de yupies que também sentia o mesmo mal-estar, afinal, do género: «Deus morreu, Marx também e eu próprio não me sinto lá muito bem. YOU CAN'T ALWAYS GET WHAT YOU WANT.
Hoje, ao passar pelos Olivais lembrei-me disso tudo. A canção também dizia que, se procurarmos bem , «you will get what you need».

Será o «what you need» tão importante na vida como o WHAT YOU WANT?
Maria Correia

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Inauguração

Sua Excelência o Presidente da República,
Almirante Américo Thomaz,
descerrando a lápide onde se perpetua o nascimento
da nova urbanização.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

ENTRADA SUDOESTE


construção da rotunda do relógio




enchendo de "gota" as viaturas





trânsito infernal



entrada e saída

DINOSSAUROS

bute lá...
cuidado com o "trinca"!

sábado, 7 de fevereiro de 2009

É P'RÁ MEMÓRIA

através do nosso fundador Bolama, recebemos um alargado conjunto de fotografias da memória olivalense que lhe foi enviado por Humberto Lopes e que julgamos pertencer ao arquivo municipal. as fotografias encontravam-se organizadas por Nuno Braga em powerpoint.
nos próximos tempos iremos apresentar, senão todas, certamente a grande maioria.
que fique pois registado, o agradecimento aos três.

na eventualidade de alguém pretender o ficheiro completo, fá-lo-emos chegar via e-mail após solicitação para o nosso contacto olivamos@hotmail.com
como sempre e para o mesmo endereço, aguardamos colaborações e sugestões.
a equipa de manutenção

OLIVE GROVE COUNTRY CLUB

[as oliveiras foram substituídas pelo hospital do SAMS...]

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Chove e cá dentro as nossas moléculas

Falta carne, disse o Fulacunda ao terminar. E eu já não sei se ela nos falta, ou se nos sobra. Às vezes, nesta dimensão de homem-écran reparo que, sem o constrangimento da carne poderia viver mil anos assim, ligado ao espelho mágico, primeiro da tv, depois do portátil. Ou até da minha janela. Principalmente quando chove e a vida lá fora fica mais forte, mais acentuada. Não fosse a carne, as suas necessidades e exigências - que não apenas as maçãs que outrora colocávamos nos bolsos para aguentar até ao lanche - poderíamos viver mil anos assim. Alimentados por uma sonda, por um chip. Um dia, com o hábito e a persistência, da mesma forma que fomos evoluindo no circo das espécies, talvez passemos ao degrau seguinte, o homo sapiens máquina. Não sei, não sabemos. Sei apenas, como o Fula, que falta - ou sobra - carne na nossa vida. É por isso que eu gosto do frio, do frio que por aí anda. Ele atiça a carne que há em nós, agudiza-a, urgencia-a até. Não quero ser revivalista. Escrevo cuidadosamente porque não quero ser revivalista. Eu sou do presente e quando não o puder ser, porque às vezes esta carne não nos deixa ser do presente, serei do futuro. Nunca do passado. Não há nada no passado que me arraste. Ou que me guie. Tenho por isso pudor na palavra e no verbo revivalista. Até porque aquilo que posso dizer a seguir é, nesse domínio, ambíguo: tenho quarenta e seis anos e deles trinta e cinco foram-no na convicção exuberante da presença, e a presença é essa apoteose da carne. Só os dez últimos foram consumidos no festival inacreditável do eu-digital, os sites, os blogues, os chats. Mudaram muito em mim estes dez anos, claro. Mudaram tanto que por vezes tenho dificuldade em conectar-me comigo mesmo. Mas a minha pele, sinto-o, ainda é de um homem do aqui e agora.
Ontem estávamos em casa do Xai-Xai para ver as fotos da última excursão, a Sevilha. Antes do mais, o que vou a dizer não tem nada a ver com os pixels: acho até que o digital nos trata bem da vaidade. Nota-se que já não somos os que tocavam às campainhas das portas, somos assumidamente os dos nicknames, mas ou porque nos habituámos às falhas capilares, ou porque elas convivem melhor connosco, o digital trata-nos com delicadeza os avanços do tempo.
Estávamos portanto em casa do Xai-Xai. O Fula, o Benguela, eu, todos em duplo, poupam-se os nomes. E agora ao ler este texto do Fula é ainda mais claro o que senti quando lá estávamos: que entre o principio dos anos sessenta, quando nascemos, e o fim da primeira década do milénio, onde estamos, o paradigma da relação alterou-se completamente, deixando de estar sujeito aos constrangimentos da presença. Não é preciso avançar na tese deste argumento, todos nós conhecemos por dentro esta realidade. A minha mãe tornou-se há dias uma mãe skype e hoje já reza o terço com os seus irmãos pela internet. As relações ampliam-se na multiplicação de aquis e agoras que podem estar presentes num único acto comunicacional.
Falta, ou sobra, carne, dependendo do ponte vista. Aos nossos filhos, por exemplo, já sobra a carne que a nós, nos falta. Era aqui que eu temia a possível ambiguidade da palavra revivalista: sinto necessidade de ser leal à minha molécula, aos meus átomos que, como já escrevi, foram criados na apoteose da presença. As minhas moléculas - o meu corpo atómico- estão sempre em mutação, os tecidos degeneram-se, regeneram-se, mas não o fazem todos por igual. Ainda devo ter dentro de mim algumas moléculas que assistiram comigo à descida de Neil Amstrong nos territórios lunares. Não serão muitas, mas existem. Por isso, sem nenhum revivalismo, confesso esta necessidade de ser leal aos milhões de moléculas que comigo se construíram no face a face, no momento único, intransitivo, da relação. Naquela sala do Xai-Xai percebi que um grupo pode ser isso: a partilha dessa lealdade às nossas moléculas, àquelas que viram a luz do dia quando aquilo que valorizava a relação era - como escreveu o Fula- estar lá, na pressa, na urgência de estar, do corre corre para quê?, para nada, para ficar a gastar solas contra as pedras ou os fundilhos das calças nos muros. Ou seja, e não sei se isto é trágico ou extremamente belo, aquela vulgata mil vezes repetida de "no nosso tempo" é falsa, ou se não é falsa não consegue falar com justiça da nossa vida, de nós. Não há o "nosso tempo". Há apenas lealdade às nossas moléculas. A todas. Aquelas que nos fazem sentarmos-nos aqui, a escrever digitalmente, na ausência, e as outras, as que nos fazem correr os Olivais à procura de um café aberto no dia de Natal. O nosso tempo só morre quando, por falta de quorum molecular - ou por um qualquer distúrbio representativo que por vezes também ocorre na nossa estrutura atómica - desistimos das formas de vida que nos trouxeram até aqui. E não há dúvida, penso-o enquanto estamos na sala do Xai-Xai e olho estas oliveiras plantadas entre os sofás, chove cada vez mais lá fora, em grupo ficamos mais fortes. Diria mesmo, mais bonitos.
Hora de almoço, depois das aulas. O pessoal empanturra-se com o que houver e no fim enfia com dois papo-secos para arrematar a fome. De seguida pira-se, bate com a porta da rua e lança-se em passo acelerado para a pressa do resto do dia. Mas em chegados tudo vira mais calmo, seja lá onde isso for, que nalgum sítio da rua certamente, um dos sítios do costume onde esteja a malta. Depois pingamos pelas casas dos refractários: soam três toques de campainha ou tenta-se um assobio codificado. Nem se aguarda resposta que essa não espera, ou melhor, diz que lá estamos à espera, no sítio do costume. Entretanto passamos por casa e entramos pela porta da cozinha, sempre aberta e guardamos duas maçãs no bolso que daí a nada a fome esperta de novo e depois já só no lanche, e voltamos então a aquietar-nos já no mesmo sítio do costume. Aos poucos vão chegando, todos trincando os restos do almoço, com cumprimentos ligeiros que nem se nota antes terem havido despedidas. E é tudo tão seguido, tudo tão naturalmente após o último momento em que ali estiveram que nem surge ímpeto de iniciar conversa. Ela vai brotando serenamente, ao ritmo de quem vem chegando como se nunca tivesse partido e assim até à hora de jantar, sempre assim. Um destes dias é possível que alguém diga algo de verdadeiramente novo, mas é certo que poucos lhe darão atenção que as palavras aqui até nem são o mais importante. Que importante é estar por ali, por entre todos, até que algo se passe ou o fechar do dia – como interrupção a que ninguém liga – os leve de volta para casa. Não há nada que tenha de ser dito ou feito, que amanhã, sabe-se, mesmo que ninguém o diga ou escute, amanhã haverá mais. E era assim que se seguia, com desfrute, sem ânsias, como se todo o tempo do mundo se pudesse sentar connosco naquelas escadas, volteado por entre os dedos brincalhões, ligando distraidamente o que foi com o que há-de vir …

… até ao dia que de longe, por detrás de um nickname estranho, houvéssemos de escrever despudoradamente que tudo aquilo, aquele desprendimento, nos parecerá um enorme esbanjamento. Desses dias de lá de longe, de onde hoje escrevemos, em que o tempo já não escorre assim e o pessoal que anda por aí, sempre que o vemos, já se sente na embaraçosa obrigação de nos cumprimentar. Ou já nem isso, que já pouco disso o fazemos de mão estendida, ampla, generosa, quente e pegajosa de suores e manteigas escorridas das sandes. Que agora quase tudo, mesmo o acenar das "escadas onde nos sentávamos com duas maçãs no bolso", até já isso se vai fazendo por via de um frígido e apressado endereço electrónico. Falta carne.


por Fulacunda

domingo, 25 de janeiro de 2009

comércio nos olivais

comércio tradicional

Vendedores ambulantes asseguravam aos habitantes pioneiros,o abastecimento de bens alimentares.
João H. Goulart (Arq. Fotográfico Municipal de Lisboa)
in À Escala Humana,
João Pedro Silva Nunes
E não só, acrescento eu. Repare-se na Fascinante roulotte no canto inferior direito da foto…

comércio modernoSupermercado Pão de Açucar nos Olivais, Lisboa, 1977.
Vasques, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
Sugerida por Marco Oliveira (João Belo III)


comércio... p'rá ressaca Farmácia na Rua Cidade de Quelimane
João H. Goulart (Arq. Fotográfico Municipal de Lisboa)
in À Escala Humana João Pedro Silva Nunes

por: Xai-Xai

sábado, 17 de janeiro de 2009

há bocados dos olivais ...





















... que chegam ao Algarve

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

fazer eco

... deste APELO

(aos participantes neste blog peço desculpa pelo abuso)

por

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

mar e rocha que podiam ser dos nossos‏

As horas voavam e, como sempre, Marilu seguia em passo apressado para não perder o 21, essa era sua sina, chegar sempre às últimas e perder a chance de agarrar lugar sentada, amanhã haveria de ser diferente, jurava com a mesma força e certeza de tal não acontecer. Chegado o autocarro à paragem, lá se arrastou com a carneirada em passo de pinguim, entrou por onde e como pôde, mais não desejou que qualquer coisa a que se agarrar com uma das mãos, que a outra serviria para lhe facultar a leitura para viagens como aquela, assim, quase sempre assim, fazia Marilu o percurso Av.de Berlim-Rossio que a havia de levar ao escritório. Naquela manhã, embrenhada que estava em leitura de conto de amor, levou tempo a aperceber-se que o inicialmente leve toque em partes suas, por trás bem se vê, se repetia numa cadência que não deixava margem para dúvidas, num crescendo de quantidade, qualidade e pressão, a coisa era propositada, invulgar e bem feita. Refeita do choque da descoberta que lhe distraía a leitura e, pior que isso, a trazia numa polvorosa húmida, que mais que preocupá-la a fazia engasgar em seco, deixou a coisa arrastar-se até ao ponto em que mais não, tal foi após ter gozado uma doce e violenta descarga eléctrica que lhe percorreu as entranhas e ecoou num gigante gemido interior de que não tinha memória em si. Sem aviso, que a coisa não era pública nem de requerer tais atenções, espetou uma cotovelada fortíssima no parceiro de trás, juntando à falta de aviso no gesto, a cirúrgica aplicação na força e local, como aprendera num prospecto de ginásio de Krav Maga, e que tomara por certo e seguro ser de uma inutilidade a toda a prova. Puro engano.
Alberto, Rocha de apelido, seguia sossegado em sua viagem, assistido pelo fiel parceiro de sempre, um lindíssimo Golden Retriever, com artes e conhecimentos de geografias citadinas, com lealdades e solidariedades tais que dele faziam um cão guia de truz! Foi pois como um raio que recebeu aquela descarga de cotovelo, que por pouco não o prostou de borco, dando-lhe que fazer nos dez minutos seguintes, qual fosse a tarefa de tentar reencontrar espaço para conseguir respirar, não ver era uma coisa, não meter ar ao bucho outra totalmente diferente e que não ia lá com cães-guia. O cão, esperto como só os cães das histórias sabem ser, apercebeu-se de imediato que o dono carecia de um amparo extra e, ainda que contrariado, viu chegar a hora de terminar suas focinhadas carinhosas pelo entremeio daqueles jeans com aroma a pecado e algum tesão. Chegou-se ao dono, que de imediato deu sinal de trela que a coisa era de estar sossegado e por ali, pois que alguém mal lhe queria, já que pelo menos a carteira não o era.
Chegada a viagem ao Rossio, vendo o personagem de bengala e cão ainda um pouco combalido, Marilu esqueceu pressas e correrias e cedeu uma mãozinha de solidariedade, ajudando-o a desenvencilhar-se por entre a turba formigueira e mais rápido chegar ao ar livre que lhe parecera o homem necessitar. Acabaram por dividir atenções um pouco mais, num café tomado no quiosque ao lado da paragem dos táxis, e onde nenhum dos dois resolveu trazer à colação as estranhas incidências na viagem acabada, limitando o assunto ao frio que fazia e a perguntas e palpites acerca da vinda da chuva ou não. O Golden, semi cabisbaixo, questionava-se se porventura sobraria para ele, tal era a capacidade detectivesca do Rocha seu dono, e palratória da moça cheirada, que ali sorvia o café por entre uma conversa sem nexo. Chegaram as despedidas, de alivio para uns e tristeza para outros e partiram, cada um a seu caminho, que a vida custa a ganhar.
No dia seguinte, Marilu, acometida que fôra por uma insónia que a não deixara dormir e a que não era alheia uma investida cadenciada em partes suas a que vinha dando pouco ou uso nenhum, saiu cedo cedinho de casa, chegando pela primeira vez à paragem a horas tais que à chegada do autocarro estava ali perto da frentinha da fila mesmo, o que veio a ter o nunca visto resultado de conseguir lugar sentada. Ainda mal refeita da conquista, subia o veículo os primeiros metros da longa subida até ao shopping, à esquerda o cemitério ficava para trás, olhou ao lado e não sem surpresa e o seu quê de emoção reencontrou o cego da véspera, já ele se apercebera que ela chegara, o cão também, que nisto de olfactos a coisa piava fino e o perfume dela não era coisa de passar despercebido, outros cheiros mais escondidos também não, dono e cão em sintonia.
- Desculpe, nem me apresentei ontem ... Maria de Lurdes, ou Marilu, mas os amigos chamam-me Mar, como se mar houvesse por estas terras de olivais ...
- Que prazer, Alberto, ou Beto, mas os amigos chamam-me Rocha ... e rochas olhe que sim, que as há, por entre oliveiras e muros aqui do sitio
- Engraçado ... fica-lhe bem . E o cão, o seu cão, como se chama?
- É o meu guia ... chama-se Mexilhão, era para ser Brisa, mas não quis confusão com o rio, o tejo, se me faço entender!
A viagem decorreu em animada cavaqueira, o Rossio chegou em três penadas quem diria, desta vez não houve incidentes, para tristeza de um e uma, gáudio de outro. O cão, esperto como só os cães das histórias sabem ser, sentiu algum remorso e leal desconforto ao perceber-se com novo papel no dito popular, substituída foda por culpa no momento de Mar bater no Rocha, e tudo por farejados cheiros nela ... em sonhos desejados, à evidência negados e afinal atreitos a finais de falta de ar colectivo!

Bafatá

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Em varejando bem

... lá acaba por nos cair nas mãos mais uma azeitona!















O Ricardo Cabral é autor de banda desenhada, ilustrador e tem um belíssimo blog (de onde foi extraída esta ilustração sobre lisboa) ... e aqui também*.

* acrescentado após alusão nos comentários deste post

Ainda que razoavelmente mais novo que a maioria dos frequentadores deste bairro, perdão, deste blog, será que alguém o conhece?

E vai mais um para a coluna dos links.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Em busca do arco-íris


Ao chegarmos à rotunda do relógio encontrámos, eu e o Apicultor, um arco-íris muito forte, quebrado em dois. Viemos encontrar uma das metades já dentro do bairro. Fez-nos bem este gesto de perseguir um arco-íris. Apetece-ne colocá-lo como expressão dos melhores desejos para o ano que começa.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

portões que vale a pena abrir...


© violeta figueiredo e pedro morais

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Feliz Natal e abafadores translúcidos e sorridentes‏

Bom dia!

Falou-se várias vezes neste blogue, ultimamente, de berlindes, guelas, bilas e...abafadores, aqueles berlindes enormes que faziam já não sei o quê aos outros, mais maneirinhos. Pois há anos que eu não via um abafador. Os meus filhos tiveram berlindes, sacos enormes cheinhos de berlindes, mas, com os anos, todos foram desparecendo, levados pelo acaso e pelo esquecimento.Talvez um dia sejam encontrados debaixo do solo, por uma civilização qualquer que já não brinca com berlindes, e que se interrogará por que razão aquela civilização perdida terá construído objectos tais, redondos como planetas num microcosmo qualquer.

Pois um destes dias, nas arrumações que sempre faço antes do Natal, e enqunato procurava algo de completamente diferente, talvez a chave de um armário ou uma lanterna, deparo-me, no meio de um monte de coisas sem nome nem destino, ao fundo de uma pequena gaveta, com um...abafador. Sozinho, sem maneirinhos à volta para «abafar», isolado no tempo e no espaço, ali estava ele, verde, translúcido, enorme, solitário, lindo!.... Ocorreu-me imediatamente o que Jung andou a dizer sobre a sincronicidade, ou seja, a possibilidade de não existirem acasos, de não haver coincidências, mas sim um entrelaçamento, como se estuda na física quântica, de factos e acontecimentos encadeados que levam a um único destino, sempre. Ali estava um abafador dos velhos tempos, piscando-me o olho, sorridente e feliz por ter sido encontrado. Sorri também. Ei-lo! Há anos que não falava nem em berlindes nem em abafadores e ei-lo ali, de repente, poucos dias depois de ter relido alguns dos textos aqui no blogue sobre o Tempo dos Berlindes. Guardei-o, desta vez num lugar especial. E, daqui a uns anos, quando de novo abrir a caixa em que o guardei, lembrar-me-ei de certeza da razão por que o fiz. Algo vaga, mas que talvez tenha a ver com isto: o passado está sempre presente, de uma maneira ou de outra, infiltrado em tudo o que fazemos e dizemos. Bom ou mau, é o que somos agora: presentes do passado num futuro que com estes se entrelaça. E, como falamos de presentes e estamos em época deles, aproveito para desejar a todos um Bom Natal, com tantas coisas boas e que vos tragam tanta felicidade como um dia este «abafador» trouxe a alguém. Um Natal lindo, verde, translúcido, que «abafe» todas as tristezas e faça resplandecer o espírito de todos os meninos, de todas as meninas, de qualquer idade.

FELIZ NATAL!

por Maria Correia


Nota editorial: Esta contribuição havia sido enviada para os bastidores deste blogue, pela sua autora, com a antecipação suficiente ao dia natalício a que faz referência. Só a inépcia desta equipa de administradores do blog, que apesar de serem muitos não servem de muito para a unica função que têm a cumprir: editar, e muito menos em época de rabanadas, impediu a sua publicação atempada. Não obstante, e porque este texto evoca muito para além do natal, acreditamos que não perderá oportunidade mesmo que com esta lamentada edição tardia. À autora, as nossas desculpas.