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quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Olhar de novo.

Na minha rua, lá pela província, tudo era novo, como aqui, nos Olivais. Misturavam-se os campos, as quintinhas, os velhos solares, as ruas largas, muitas ainda por calcetar, existíamos logo depois dos bairros sociais, ali ao lado das moradias, ao lado do Liceu, ao lado do Colégio. E tudo isto, logo depois do burgo, do casco medieval, cinco minutos a pé quase em linha recta, passando pela mercearia do Sr. Pinto, do cinema S. Mamede e do café Óscar.
Na minha rua havia moradias, umas geminadas, outras não, um prédio de três andares com oito apartamentos, uma escola primária nova e uma casa rural onde vivia a velha leiteira que, todas as manhãs, distribuía o leite ainda morno e espesso que tanto me enjoava e que, pela tarde, soltava as vacas no pasto que se seguia ao fundo do meu quintal.
Nos jardins que por lá cresciam, havia cedros, azáleas, salva, roseiras e cravinas, mas também lá chegavam, com as brisas mornas da Primavera e do Verão, ou com os ventos e vendavais das outras estações, os cheiros da terra e do estrume, das matas e dos soutos, das vides e das fogueiras.
Na minha rua, havia mais rapazes do que raparigas, mais bicicletas do que bonecas. Um dos rapazes tinha um carro de pedais de lata vermelha (que sempre invejei por ser demasiado grande para nele andar) e a quase inexistência de outro tráfego, que não o das pachorrentas vacas a caminho do pasto, transformava-a em campos de bola e badmington, terreiro de duelos ou mares revoltos onde temerárias embarcações e arrojados piratas travavam a grande batalha naval. Era também onde se mostravam os canivetes, as caricas, as colecções de insectos ou de cromos, onde se trocavam risos de troça, berlindes, pequenos segredos. E, mais tarde, os discos de vinil, as cassetes, os bilhetes para os rapazes, os olhares, os assobios para as raparigas.

A minha rua era, afinal, como a vossa. Ao escrevê-lo aqui sei onde nos reconhecemos e o que nos distancia.


Este outro lugar que é o Olivesaria, mais não será do que uma das ruas onde nos vamos cruzando ao sabor e ritmo das vidas de cada um, nuns dias com o coração escancarado, noutros com o jeito do rufia, noutros ainda assim como se não passássemos, a fingir que estamos noutro lado.

Hoje, venho em jeito de desafio, hoje venho como alguém a quem não apetece mesmo nada deixar morrer este espaço. E se ele se basta com tão pouco, um vir aqui de tempos a tempos, somos tantos, hoje hei-de ser eu a empurrar o écran um pouco mais para baixo.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Olhar de novo

Não devia vir assim com tão pouca inspiração e tão tarde. Mas é sempre tarde. Ou será sempre tarde, a adivinhar pelo tempo que vai e vem sem nenhum texto para animar a blogosfera do olival. Por isso, sigo em frente. Alguma ideia, tal como se fosse uma bolota, há-de cair no caminho para me ajudar a levar a conversa por diante. É um pouco a custo que venho aqui. Tal como naquele fim de férias dúbio em que já não era férias mas em que meio mundo ainda não tinha chegado à rua, era penoso vir até aos bancos, sentarmo-nos à espera que chegasse alguém, e começarmos a fazer rodar a girândola da troca de palavras. Depois haveria de vir um, outro, e lá ficávamos três a queixarmo-nos da malta que nunca mais vem, da seca que é agora. Não me apetece mesmo nada deixar morrer este espaço. E se ele se basta com tão pouco, um vir aqui de tempos a tempos, somos tantos, hoje hei-de ser eu a empurrar o écran um pouco mais para baixo. E se calhar até ponho foto. É isso, talvez ela me inspire. Já venho.
Nada. Não me inspirou nada. Esta pintura que deixámos ficar nos muros de Carvalhais, em S. Pedro do Sul, no Andanças, não me fez surgir nada. Um vazio macio, mas vazio. E agora tenho sono. Mais sono ainda. Espero que ela vos inspire. Amanhã a ver se volto cá mais cedo. Ou com menos sono. Ou com algo para dizer. É difícil. Ando mais para o lado do ouvir. Nas férias acontece-me sempre isto. Fico mais para o lado do ouvir. Os sons dos lugares. Os sons das pessoas. O que elas dizem. O barulho dos passos no chão. Não sei do que é mas sou assim, nos tempos de verão. Sabe-me bem a vida que me entra pelo lado do ouvido. Parece-me música. Se calhar é porque vou a sítios que me quebram a rotina. Não estou à espera e de repente há um sino a ecoar no vale. Ou os reclamistas de Teresina, apregoando tudo, picolé, candidatos, celulares, suco de caju. Vim com vontade de ir de novo. Não sei se vos acontece o mesmo. Ando ainda alguns dias no fim de férias a percorrer as ruas da minha cidade como se fossem ruas de uma cidade estranha. Os seus sons novos, inesperados. E mesmo aos meus vizinhos, aos meus amigos, ou aos colegas de todos os dias, hei-de surpreender com um olhar pausado, demorado, como se os estivesse a olhar pela primeira vez e a pensar de mim para mim o quão estranhos são.