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domingo, 6 de abril de 2008

Estes irmãos Baltazar não eram do bairro?

segunda-feira, 31 de março de 2008

O rapaz que mordia...

. . .
Em Março de 1978 estava a descobrir uns Olivais novos, mais negros e fascinantes que os anteriores.

Tinha chegado à primeira divisão da vida escolar depois de ter andado pelas secções de Chelas e Prodac do D.Dinis.

No ano lectivo anterior já estava no D.Dinis mas de tarde. Era assim uma espécie de limbo. Chegava às aulas quando os da manhã estavam a sair e as manhãs para pouco serviam.

No final desse ano lectivo, quando chegou o verão (de 1977) uma mudança fundamental aconteceu.
Os meus amigos tinham ido de férias e eu sózinho sem saber o que fazer.
Não me lembro muito bem como se passou essa mudança mas penso que um dia me cruzei com o A. que ia com os P. e acabei por me ir encontrando todos os dias com eles que sempre tinham estado ali mesmo ao lado e com quem tinha jogado muitas vezes à bola no maracangalha e que tinham seguido a vida por outra encruzilhada.

Depois os outros regressaram de férias e quando chegaram estava eu com estes novos amigos a conversar.
Olharam-me de lado como se nestas coisas das amizades houvesse algum exclusivo. Começaram a combinar saídas e encontros sem me incluir. Um dia fui a casa de um deles, estavam a preparar-se para sair e lá me disseram para os acompanhar. Tinham um novo grupo e bastou-me um quarto de hora para perceber que não fazia parte dele.
Tinha descoberto que os meus amigos dos últimos 3 anos já não eram os meus amigos.

Tinham feito tudo para me sentir desconfortável.
Os novos amigos faziam tudo para me sentir integrado.

Entretanto Setembro foi-se aproximando do fim.
Todos os dias conhecia pessoas novas.
Os Olivais tinham-se tornado enormes.

As aulas começaram e todos os fins-de-semana havia festas. Umas vezes no S. Marcos outras numa garagem das vivendas da Vila Fontes.
A caminho dessas festas parávamos no Tó para abastecer. Um "sumarino" para o caminho.
O rapaz que mordia tomadas eléctricas tinha-se tornado no amigo inseparável.
Movia-se com elegância nesse novo mundo.
Conhecia toda a gente e toda a gente o conhecia nessas festas cheias de caras novas e de música nova. Nova para mim.
O "Peter Frampton Comes Alive" era um sucesso.
Os Boney M. eram o máximo. Lembro-me de os ouvir em casa das M's, as 3 irmãs do prédio dos coronéis, ou seria dos generais?, ali mesmo ao lado d'A Tosta.
A vida cantada pela Grace Jones era em tons de rosa.
O "New Kid in Town" dos Eagles parecia escrito para mim.

Em casa do Nuno ouvia-se o "Love You Live" dos Stones. E foi aí que também vimos na televisão o concerto deles em Paris "Aux Abattoirs".




(não estavam à espera que colocasse o ras-ras-Rasputine, pois não...)

Esse concerto na tv marcou-me muito mais que o disco.


Foi neste período que conheci o Xai-Xai, o Fulacunda, a Vila Pery, o Bafatá, o Draivimpe, a Timor e mais alguns dos que por aqui circulam. O Bolama ainda estava nos distritais mas não demorou muito a chegar ao nosso campeonato.

No liceu os outros, os antigos amigos, olhavam-me de longe e deviam pensar "coitado, está a estudar para delinquente e está a sair-se bem."

Eu estava-me nas tintas para eles.
Esta nova vida era muito mais interessante que a anterior.

Na minha turma estavam o S. e o S.. O primeiro excelente aluno mas sempre pronto para "o putedo", o segundo, sombra do primeiro, gostava de armar confusão. Nunca havia um momento de tédio ao lado daqueles dois. O Bafatá era de outra turma mas nos intervalos juntávamo-nos todos.

O ano foi decorrendo cada vez mais animado.

As tardes sem aulas tornavam os dias mais longos.
Os intervalos dos Viveiros passaram a fazer parte desses dias e os "flippers" também. E uns lanches n'A Tosta.

No Carnaval fui até Vilamoura. Com os F. mas como havia uma regata o S. também lá estava e foi aí que conheci o Rio. Estavam no melhor hotel da cidade e tudo servia para "fazer putedo". Eram umas atrás das outras e a imaginação era muita. Uma noite acabaram por colocar todas as cadeiras e mesas da esplanada dentro da piscina.
Parece que estava mesmo a estudar para delinquente...

E assim cheguei a Março de 1978.
Foi um mês quente e foi quando apareceram os "skates" e outras caras e cada vez mais maluquices para fazer.

As festas passaram para o Penta e para o Fénix e cada vez mais gente rodava à minha volta.
Algumas coisas começaram a ser "pesadas" demais e tive de começar a ser mais criterioso na escolha das pessoas com quem andava.
Os erros servem para aprender e quem não aprende paga cara a lição.

Estes novos Olivais eram fascinantes e perigosos.

E tornavam-se cada vez mais perigosos.

Mas isso já foi depois de Março desse longínquo ano de 1978.

. . .

sábado, 29 de março de 2008


Nas tardes dos Viveiros na Primavera de 78? 8º ano, 13 anos, um poço de timidez desajustada, tão fundo poço que até afogou quase tudo da memória desse ano. Muito mais tarde haveria de recuperar como se me preenchendo, em incompetente regime de auto-construção própria entenda-se. Mas isso só uma mão-cheia de anos depois, algo até começado no ano seguinte, um 9º ano já mais desanuviado também por obra de uma turma mais enturmada e assim animando, fazendo libertar, mas tudo aquilo num passo a passo feito de passos muito pequeninos e tão lentos, assustados por vezes, aterrados tantas outras. Sei que naquele 8º ano tinha aulas de manhã e que era uma turma nova para mim onde resplandecia - em algumas disciplinas comuns - a beleza absoluta, longínqua como se de realeza mágica, coisa até divinal e por isso trituradora, devastadora, dolorosa, da Ana M. essa mesma que já em adulta passou a Ana C., então já algo humana presença. E com quem já voei transcontinentais por duas ou três vezes sem nunca lhe ter dito de tais memórias (e que a Lobita não as vá denunciar hoje, em reuniões de família ...) - acho que voltaria a corar, fenómeno que era, e continuou a ser nesses anos seguintes, o meu tenebroso dia-a-dia de então.

Mas é das tardes que querem relato, não desses trambolhões matinais. E estas eram eram passadas no futebol, ainda - sofrendo de quando em vez com as intromissões dos queques cagões da bolama, cheios de pulovers sidney e sapatinhos, a acharem-se muito importantes e crescidos, os sacanas, uns putos insuportáveis sempre com umas flausinas em torno deles, elas de calças apertadas nos joelhos e uns reis na barriga, a desprezarem os putos foleiros que jogavam à bola - não me esquecerei nunca do Tiago F. e do X. e doutros chegarem aliados ao Pimenta e à seita deste para nos roubar a bola. Nunca esqueci, nunca esquecerei - por acaso chegou o meu pai, tiveram que se refundir - mas isso talvez tenha sido um ou dois anos antes.

E foi nessa altura, no ano anterior ou nesse, que conheci o Mário W. (e foi o Abu, então ainda puto Zé, que nos apresentou e ainda me lembro dele à frente do "Canguru" a dizer com um sorriso "temos um novo amigo", e tivemos que o Mário era uma jóia), vizinho do prédio de cima, o do Zé Nuno Martins, esse onde de vez em quando aportava um "Cantor da Rádio". O Mário chegara da Guiné-Bissau para viver com a tia, a família passando um mau bocado por lá, detalhes que só alguns anos depois pude dele saber e entender, coisas das revoluções e dos horrores da família Cabral. O Mário era um amigo de mão-cheia - do qual perdi o contacto, estupidamente, pela minha inércia de termos subido para circuitos diferentes e dele ter avançado na biografia mais depressa, casado e trabalhando ainda eu andava numa tardia adolescência, e depois até enviuvando, ao que ouvi. Nessa época passávamos as tardes no quarto dele ouvindo música, uma fantástica iniciação ao "afro"- funky, disco (sim, disco), reggae, mais tarde até ska: sabia lá eu que estava a ouvir o Off The Wall, os Chic, Diana Ross, todo o Motown, tanta coisa que era aquilo tudo. Pois para mim que apenas conhecia, via os mais velhos e a rádio, o rock inglês e o rock progressivo, de todas aquelas novidades só o Marley era ícone, o resto apenas fabulosa música. Era um mundo novo que se abria, uma fabulosa discografia baseada num gosto tão diferente, tão mais burilado, tão mais rico, e um ritmo quente, diferente, como se outras coisas houvessem. Quase tudo era pertença do primo dele, um tipo mais velho, já nos vintes e tais e que veio a morrer novo, só depois percebi eu que da doença que entretanto chegou, coisas do como ele era. Música a deixar-nos sentir diferente também pela dança que ali aprendíamos, ainda que desajeitados de envergonhados, pois tanto o Mário nos dava "aulas" como a prima Z., um bom par de anos mais velha nos ensinava, com uma simpatia radiosa de fazer crescer os miudos.

Nisso já andava comigo o Organo, que mais tarde veio a ser "Úare", e ainda mais tarde "Nani" mas este mais para as amigas - um tipo que também não vejo para aí há uma década. E também um pouco o Pedro C., camarada que se afastou já bem mais tarde em corridas diferentes, tendo começado por emigrar para o Tosta. Desse grupo, ainda atreito ao estádio Marancagalha mas mais ou menos excluídos das sessões musicais, lembro o Chiquinho do prédio do Ambrósio, que tinha um riso contagioso mas ao qual as coisas não foram correndo nada bem logo desde tão cedo, e o Luís e o Manuel, os irmãos "parolos" como dizíamos, na maldade de então.

Nesses meses foi o começo do crescimento, uma coisa feita neste encerramento que aqui resmungo, entre os livros paternos, a colecção de bolso da RTP e a música a fazer-me assim. O primeiro single "Money", comprado no "Pão de Açúcar" e depois no início do ano o primeiro LP, "Animals" dos Floyd, 240 escudos comprados com 12 notas de 20, que era a semanada. O primeiro Dylan, "Desire" que tinha uma canção quase pop que falava de namoro nas praias tropicais chamada "Mozambique". O primeiro Genesis, "Wind and Wuthering". Em Julho, logo a seguir ao aniversário, já aulas terminadas, uma decisão que depois percebi como estruturante da minha vida: contado o dinheiro das prendas oscilei entre comprar um skate - como alguns queques tinham - e o duplo ao vivo "Love You Live" dos Stones. Hesitei, hesitei e fui ao Apolo 70 comprar o disco. Foi só por a tocar a "fanfarra para o homem comum" e perceber que o skate se fodesse. Dois meses antes, numa tarde sozinho em casa, roubara o primeiro SG Filtro da secretária do meu pai. Fumei-o à janela das traseiras, a olhar um Tejo muito longínquo. Um sabor que muito de vez em quando ainda me aparece - para aí há um ou dois anos regressou inopinadamente. Pode-me matar esta porra de vício. Mas então construíu-me.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Tardes dos «Viveiros»

Por momentos, João Belo, transportaste-me para dois momentos, distintos. Coisas da mente, que vai buscar aquilo que queremos mas também aquilo que não esperamos.

1º Momento: A primeira namorada a sério!
O fim do 9º ano.
Acaba o ano escolar. É o último dia de aulas.
Andámos o ano todo naquele jogo de insinuações. Mas nunca deixavamos de ser apenas bons amigos. Sempre soubemos que era mais que isso! mas continuavamos naquele jogo!
Aquele delicioso jogo, em que nos afastamos e sabemos que ela vem atrás, e quando ela finge que não nos vê, nós estamos sempre atentos a ver tudo, e quando há qualquer coisa, estamos sempre ali, ao lado...

Foi um jogo delicioso. mas o ano acabou!
Acabámos o 9º ano. E eu, por decisão familiar, vou ter de deixar a escola. Vou viver para a Caparica.
Estamos nas despedidas e declaramo-nos. Choramos. Mas porquê? Porquê? Porque razão não aproveitamos todo o ano? porque fingimos que éramos só amigos? Ambos sabíamos!

Um drama... em que o calor ardente de junho, o efeito das multiplas cervejas acumuladas na relva inclinada, o desespero da separação, as lágrimas, os beijos desesperados como se fossem os últimos (e foram mesmo!!! essa é que é essa!!!)... Foi uma tarde dos «Viveiros»...
A última tarde dos viveiros!


2º momento.
Por acaso acho que não foi de tarde, mas de manhã!
E veio-me à cabeça por causa dessa tonteria que ganhou dimensão de caso nacional, de uma miuda histérica a recuperar um telemovel da professora em plena sala de aulas.

Ora, digam-me lá vocês? nenhum de vós esteve numa sala de aulas com cenas parecidas???
É verdade que não havia telemóveis. Eu sei... Mas havia a mesma bagunça!

Um dia, tinha uma professora que era doida, dava uma aula estranha... já nem me lembro bem, no 9º ano, acho que era Economia & Contabilidade... uma coisa assim!
Ora, a mulher não batia bem da cabeça!
Entrava na sala, e falava, falava, sem olhar para nós.
Metia o olhar no infinito, e debitava cassetes... falava, falava, falava...

Ora, era o gozo total!
Aquilo parecia um robôt! Se houvesse muito barulho ela levantava mais a voz, se não houvesse barulho, falava baixinho!

Um dia... estava tudo doido... era Primavera, o Sol entrava pelas janelas... a miudagem, toda apaixonada... cada um a querer impressionar o próximo... e era a palhaçada total!
A prof. de olhos vidrados no infinito já nem se ouve a si própria... e desmaia. Cai no chão, parecia uma pedra!

Assustámo-nos abrimos a porta a chamar uma administrativa... e lá foi ela levada em braços para uma ambulância!

Ninguém lhe tocou. A mulher caiu pró chão sozinha... mas acham que alguém nos perguntou o que se passou???? Nada!

Agora de repente está tudo escandalizado com uma miuda desesperada para obter o seu telemóvel!

Não é desejáve que aconteça, e deve ser penalizado quem se comporta assim... mas de repente parece que todo o mundo perdeu a memória! Já não se lembram?

Olhem... eu lembrei-me! As manhãs dos Viveiros...

quarta-feira, 26 de março de 2008

Tardes dos Viveiros: o dia 28 de Março de 1978


Se pudesse, quero dizer, se soubesse, escreveria um texto para colorir. Diria apenas: Tardes dos Viveiros. Diria, são 16:52. Fechem os olhos. Imaginem-se lá, nas tardes dos Viveiros. Algumas daquelas horas encostadas à parede do corredor entre pavilhões foram vossas. Abram os olhos para dentro. Abram os olhos para dentro, para essa imensidão que é o tempo todo da nossa vida. Imaginemos o espaço. Um corredor largo, principal, por baixo de um telheiro (o que para alguns irá certamente fazer acudir a memória do abrigo durante uma forte chuvada, da forma como tudo se alagava). Também um pátio. Um pátio que era uma montra com o seu banco de cimento corrido, ladeando todo o corredor. Nesse pátio jogava-se à bola. Ou faziam-se rodas de conversa (de certeza de que alguém se está a lembrar das rodas de conversa. Do tempo que ficávamos nestes circulos que eram os nossos grupos). Ou ao pé das motas, no muro cá debaixo. Ou à porta dos cafés. Na pastelaria. São as nossas horas que estão lá. Não sei como é que estávamos vestidos. Muitas modas dentro de um curtíssimo período de tempo, era assim. São 16:58, do dia 26 de Março de 2008. Vamos recuar trinta anos nos nossos relógios, ao dia 26 de Março de 1978. São 16:58, faltam dois minutos para o intervalo. De certeza que este dia existiu, sabemos isso do passado, esteve lá. Há-de ter havido um dia 26 no mês de Março de 1978. Timor, Bolama, Fulacunda, Lobita, Lobito, Vila Pery, Draivimpe, eu sei que pelo menos vocês estiveram lá. Eu vi-vos lá. Eu também lá estava. Peguem na caneta, quer dizer, neste polígrafo digital que abre as portas para este bairro virtual (e para além de todos os outros marcadores que queiram colocar, vamos uni-los por mais um marcador comum, Tardes dos Viveiros).
[E a Rapariga que Veio da Província, o Maracangalha, o Rua 2, o Bengas, o Beira, o Xai Xai, o Moçâmedes, a Inhambane e o Lourenço Marques, este desafio também é para vocês. Escrevam sobre esse vosso dia de 26 de Março de 1978, com ou sem Viveiros por perto.]