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sexta-feira, 31 de julho de 2009

Nada resiste à erosão do-que-vem-aí, da acreditada melhoria

Os Viveiros não só se transformaram em Escola Secundária Eça de Queirós (com s) como estão agora a ser moldados desta forma.

Pelo menos ficará, por enquanto, o velho muro, local de namoro, agrupamentos proto-selváticos, montra de motos e arreganhos, e - claro - de aquisição de haxixe, então dito "produto" ou "brunhol", comercializado às resmas de "pintores". Logo atrás o café (muito atascado, e com mercearia adjacente - vera cantina colonial) do Sô Álvaro, local de flippers e de iniciação aos "submarinos", já feneceu. Quanto ao muro, a julgar pelas inscrições fronteiras, manterá alguma vida.





























By Bolama

segunda-feira, 24 de março de 2008

Velhos


Há coisas tramadas na memória de um amnésico. Há, como disse o Beira há muito tempo a propósito de um amigo, coisas de que nos lembramos e outras que não conseguimos esquecer. Nestes tempos em que da escola tanto se fala, do que fomos, do que queríamos ser, da forma como hoje nos retratamos, aquele velhos do Bolama atirou-me para um fim de tarde nos Viveiros que nunca irei esquecer. O dia em que o Fernando Namora foi à escola falar da sua obra.

É um momento menos simpático, menos lustroso, do qual me envergonhei profundamente pelos anos que se seguiram. Eu não era aquilo que se pode dizer, um beto, ou um facho ou um anticomunista primário. Era um sonhador, como sempre fui. Vinha cá abaixo ao mundo para receber a semanada e ir comprar tabaco ao meu pai e pouco mais. Mas não era um beto a sério. Ao meu irmão lá conseguia de quando em vez vestir as calças de fazenda, os sapatos italianos, os pullovers de marca, e lá ía todo pimpolho fazer de beto para os intervalos das tardes dos Viveiros. E era um bocado do tipo de ir atrás dos outros. Numa dessas tardes um dos meus amigos de ocasião convenceu-me a ir fazer estrilho para um debate que os comunas tinham organizado. Era uma apresentação de um grande escritor, Fernando Namora. Só me lembro, ou melhor, só nunca mais me consegui esquecer, de ter passado uns largos minutos a rir, a chamar macaco, comuna e careca ao Fernando Namora. O episódio passou, eu enterrei-o para o meu canto escuro da memória. Também passaram todos os modismos de que me fui fazendo. Anos mais tarde, estava a ler "O Jornal" e dou de caras com uma crónica de Fernando Namora, intitulada, Os Velhos. Li-a e reli-a sem conseguir deixar de ver aquele homem sentado a uma mesa de sala de aula dos Viveiros a ouvir dois ou três putos estúpidos a chamarem-lhe os piores nomes possíveis. E admirei-lhe a sua coragem, a sua humildade. A partir dessa altura li-lhe a obra toda. E escrevi-lhe umas cinco ou seis cartas, a dizer-lhe quem era e o que lhe tinha feito e a pedir-lhe desculpa. Rasguei-as todas. Porque compreendi que eu não era ninguém, que para o grande escritor aquele episódio não tinha deixado nenhuma marca e que só a mim, só a mim me marcara.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Os professores

Ao descer para o metro cruzo-me com um rosto que me parece familiar. Ele também me reconhece.

-Professor Roxo! Viva!

Está reformado, entregue à sua vidinha, que o relógio segue em frente. Trocamos duas ou três palavras, foi meu professor de latim, ubi societas ibi ius, onde está a sociedade aí está o direito, mala burra est, a maçã é vermelha, rosae, rosis, rosa, foi o que me ficou desse ano e meio às voltas com o latim, mais os atrasos na vida, mas isso quem sabe, se não vai por um lado encaminha-se por outro, o professor Roxo, sempre com um ascético casaco de napa preto, olhos cavados, presidente do conselho directivo, era o Roxo, o maestro dos nossos Viveiros.
Esqueço-me dele e começo a lembrar-me dos outros professores. Daquele professor de matemática que inventava jogos para que a ciência dos números se nos tornasse mais familiar, da professora Noémia, a professora de história, que era terna e meiga e paciente e doce, do Bacelar, o professor Bacelar, que ficou um amigo para a vida, ainda o encontrei por aí, o Gadoche, o Rui Dias José e o Afonso Praça, e muito especialmente aquele professor que já não me lembro do nome mas que nos colocou por dentro da febre de escrever. As suas propostas de redacções entusiasmavam-nos. Havia uma rapariga, a Luísa, a quem ele descobriu uma veia poética e que dizia, há-de ser escritora. Liamos os textos dela em voz alta, eram textos sensíveis, poéticos, falavam sobre a mulher, e a pouco e pouco todos nós alimentávamos a vontade de passarmos pelo quadro de honra daquele professor apaixonado pelas letras que nos lia o que diz molero?, como nos falava de Irene Lisboa, José Gomes Ferreira, Aquilino, Garret, e que principalmente, nos tornava nos personagens principais da nossa vida. Sorrio ao passar do tempo: comecei a escrever por inveja da Luísa. E às vezes quando por aqui alguém se detém no que eu escrevo, lembro-me do trabalhoso percurso que nesse ano fiz até merecer, numa redacção, um bom deste professor meio careca, baixinho, e que mudou tão radicalmente a minha relação com a vida.