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quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Ecossistema comunicacional

Foi no princípio da década de noventa que, na actividade de formação em animação sócio cultural, comecei a explorar este conceito, o de ecoterritório para tentar organizar as ideias sobre as possibilidades de intervenção num determinado contexto comunitário. Associado a este, surgiu-me um outro, o de ecossistema comunicacional, que me permitia propor aos meus alunos a ideia de que o animador sócio cultural mais não era do que alguém que, munido dos seus conhecimentos técnico-cientificos e face a uma comunidade, que enquanto sistema de comunicação apresentava alguns problemas de funcionamento, iria trabalhar para tentar restaurar os elos e as ligações quebradas, potenciando, valorizando e implicando os diferentes elementos da comunidade.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Ainda a grande muralha de betão

Aquelas imagens que o Beira aqui colocou e essencialmente o título, dando-me conta de que afinal o meu percurso de vida me aproximou de uma visão comum sobre o espaço, sobre o lugar, sobre a forma como os habitamos, com pessoas que até aqui só conhecia por fora, deram um novo alento a esta ideia de pertencer a um blogue como a Olivesaria que, por vezes, se assemelha a um grande café virtual que reune os diferentes botecos de venda de tempo livre que se ocuparam das nossas adolescências comuns. E que nos revestiram a todos de um película, uma pele, multiresistente à erosão do esquecimento. Eu não sei de onde me vem esta pulsão para um sentimento comunitário face a estas oliveiras, a este linguarejar olivalense. Nem o sei medir ou qualificar. Só sei que por vezes me atrai, outras me afasta. Mimetizando assim a vivência que tinha com os cafés reais do bairro. Onde na mesma tarde podia ir de uma tremenda seca até a uma enorme aventura. Eram lugares de ócio, de vazio, mas também de febre, de febre azul, amarela, verde, lilás, arco-íris. E naquela altura não lhes havia alternativa. Quer dizer, crescemos assim. Podíamos mudar, chatearmo-nos de outro modo e de outra maneira, combatíamos com uma imaginação e denodo que já não temos hoje a grande instituição que nos acompanhou o crescimento, a seca, o tédio ( e que se limitava as mais das vezes ao tempo em que tinhamos de ir aos consultórios médicos) mas, enquanto adolescentes, estávamos presos a um estádio de desenvolvimento em que a liberdade era uma metáfora, uma utopia, um sonho. Agora já não é assim. Tenho quarenta e cinco anos e a única vez que apanhei uma seca nos últimos anos foi quando estive à espera de uma consulta no Centro de Saúde. E embora faça, com um sorriso nos lábios, muitas coisas que os meus dezoito anos achariam entediantes e insuportáveis, congratulo-me com tudo isso. É a minha vida, a vida que tenho para viver. E não é só isso, claro, já me perdi no que estava a dizer. É aliás por isso que muitas vezes evito cá vir. Sempre que cá venho começo a falar, a falar e depois perco-me. Eu estava a dizer que o post do Beira me relembrou de que há uma zona do pensamento onde eu me reconheço próximo de um sentimento comunitário com o Olival. É o rememoriar, o tal remurmurejar, isso é a seiva, mas há mais qualquer coisa: a ideia de que o trabalhar sobre uma determinada percepção do que foi viver nos Olivais possa ajudar ao próprio ofício de construirmos os lugares, os bairros, as próprias cidades. E de facto a metáfora da grande muralha é perfeita - e poupa-nos tantas palavras- para explicar porque e onde é que se foi longe de mais na ocupação volumétrica das antigas hortas, porque é que se foi longe de mais no negócio especulativo.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Olivais Velho








Algumas fotografias tiradas nos Olivais Velho, em Janeiro de 1983.

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segunda-feira, 26 de novembro de 2007

OLIVAIS-SUL EM DISCUSSÃO

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[Reprodução de artigo publicado na revista "Arquitectura" nº 127 - 128, 1973]

Olivais-Sul constitui o maior e mais ambicioso conjunto habitacional realizado entre nós. Na sua concretização, a vários níveis de intervenção, estiveram envolvidos numerosos técnicos (mais de uma centena de arquitectos); ali tiveram lugar formas de organização e métodos de trabalho que até então não houvera oportunidade de tentar em Portugal, pelo menos na escala de uma unidade habitacional urbana, planeada de raiz.

Contudo, como antes acontecera com Alvalade, nenhum esforço crítico sistemático se verificou (para lá de alguns esforços de promoção pessoal, de que Olivais-Sul foi pretexto), para entender os resultados obtidos e situá-los na linha de uma evolução possível. Dir-se-ia que é nossa vocação começar eternamente a partir do zero.

Por nosso lado, devemos confessar que tivemos muitas dúvidas em iniciar esta discussão e talvez até - honestamente o reconhecemos - tenhamos perdido a melhor oportunidade para nela interessar os nossos leitores. E isto porque, nesta altura, Olivais-Sul constitui um projecto referenciável no tempo, e, naturalmente, «datado».

A própria evolução da construção daquela unidade contribuiu também para isso. Realizada a parte habitacional, as infra-estruturas e em parte o equipamento escolar, muita coisa resta ainda fazer para que Olivais-Sul seja aquilo que o plano inicial previu. Falta, principalmente, dar forma ao centro cívico-comercial principal, coração de todo o conjunto e elemento motor da vida social.

Seja como for, tardiamente embora, daremos início, já no próximo número, (assim o esperamos), à publicação do uma série de depoimentos sobre Olivais-Sul, de acordo com um questionário entretanto elaborado, que abrangerá uma vasta gama de problemas. Terminaremos com a publicação de uma mesa-redonda para a qual serão convidados alguns dos responsáveis pela realização do plano.

Entretanto, e para documentação prévia dos nossos leitores, que a ele não tenham tido acesso, publicamos neste número os elementos do plano de urbanização original, tal como constam de uma publicação do Gabinete Técnico do Habitação da C. M. L., editada em 1964.


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sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Olivais Vivos: a Malta das Ideias


Na semana seguinte voltei à Quinta das Laranjeiras como prometido. E voltei já com uma animadora da equipa de rua. O grupo tinha aumentado. Sentámo-nos na relva em frente e eles apresentaram-me o plano de voo: íriamos para o lado norte, seguindo a linha do comboio. Desta vez traziam lanche para fazermos um pequeno piquenique.

E começámos a definir a alma do grupo: seríamos um grupo de aventuras. Todos os fins de semana íriamos descobrir um sitio novo na cidade. Nas primeiras duas semanas fomos a pé. Calhou-me também a vez de lhes mostrar os meus sítios. O Vale do Silêncio em primeiro lugar, tinha de ser. O mais importante era a sensação de sairmos, de uma aventura, de sermos um grupo e de podermos brincar e fazermos o que nos apetecesse (por vezes eu próprio fazia coisas disparatadas e inusitadas, mas que me apeteciam, como subir às árvores ou desatar a cantar ou a dançar no meio da rua). Ou de repararmos nas coisas, de sairmos da nossa ignorância de de preenchermos o mapa das nossas vivências com as novas descobertas. Estes miúdos não conheciam Lisboa. Não só os museus, os jardins, também os bairros antigos, e principalmente, esta sensação de passear na cidade. E eu aprendia nesses dias uma coisa decisiva para o meu trabalho de animador, a necessidade de me apartar das técnicas e de ser o João, o pequeno joão pé de feijão. É uma aprendizagem do teatro e da vida: a única coisa que de verdadeiramente luminoso podemos dar uns aos outros é a totalidade da nossa presença no mesmo espaço-tempo, sendo que o estarmos realmente presentes resulta de um trabalho laborioso de refinamento e decantação, de busca pessoal.

Depois escrevemos uma carta à Junta de Freguesia, donde o projecto emanava, e pedimos que nos apoiassem as deslocações. É claro que não passava de uma pequena estratégia para eles se comprometerem com a dificuldade de arranjar recursos. E assim a Junta passou a fornecer módulos. Um dos primeiros sitios onde fomos foi ao Jardim da Glubenkian, que eu conhecia de olhos fechados, por lá ter animado, há muitos anos, no Centro Artístico Infantil, a aventura no jardim, um jogo de pista.

Gradualmente fomos fazendo cada vez mais coisas. Inclusivé um jornal. O que nos permitiu adoptarmos uma atitude mais relacional com quem encontrávamos, fazendo entrevistas. Os grupos são o grande espaço de crescimento mas é preciso abri-los, torná-los abertos. Muitas vezes quando saíamos eu sentia que eles queriam ir contra a tentação de ficarem no seu pequeno grupo, de não se confrontarem com os outros. Quando faziam aqueles amigos ocasionais - e as crianças e os adolescentes são pródigos a fazer amigos da minima actividade em comum - chegava sempre um momento complicado, que era o de dizerem de onde vinham. E aí, tantas vezes que isso aconteceu, ao dizerem-no, adoptavam uma posição agressiva, fechavam-se. O mais interessante para mim - e a partir de certa altura a pretexto de querem que eu fosse falar com os pais para que estes os deixassem ir, o que eles queriam era introduzirem-me nas suas casas, nos seus problemas, nas suas vidas - é que eles sabiam, principalmente os mais velhos, que havia um circulo vicioso a pender sobre os seus caminhos e que estas pequenas oportunidades eram muito importantes para eles. O grupo começou a ser um lugar onde também falávamos deles próprios.

E tal como na Olivesaria, o nome da malta das ideias surgiu do delfim do grupo. Para ele era lógico que se aquilo que nos unia era termos ideias para sair do bairro, deveríamos ser a Malta das Ideias. Um deles fez o símbolo, o logotipo do grupo. Fizemos fotocópias com o símbolo no canto superior esquerdo e passámos a ter folhas timbradas. Numa delas pedimos um espaço. Nova pequena estratégia, claro: a possibilidade de termos um espaço tinha surgido com o aproximar do Outono e com o eu ter levado para a assembleia do projecto a pergunta, e agora, onde nos encontramos?.

E foi-nos cedido um barracão. E tintas, e trinchas. Fomos nós que escolhemos a cor e que pintámos. E começámos a ter rotinas de organização do espaço. Não tinhamos luz eléctrica, funcionávamos com velas, o que dava um ar mais engraçado às nossas reuniões. A mim fazia-me lembrar os clubes da minha infância, em Mafra, quando ocupávamos moinhos abandonados e faziamos grupos decalcados das experiências dos Sete.

O projecto entretanto tinha-se tornado a coqueluche dos Olivais Vivo, para o qual também muito tinha contribuído a sua presença na televisão, num programa sobre o Contigo Vais Longe. Meses mais tarde, em pleno crescimento da Malta das Ideias, depois de um fim de semana em S. Francisco da Serra (onde eu tinha alugado uma pequena casa de campismo de habitação) em que delineámos a programação para os próximos seis meses, o projecto Olivais Vivo termina de forma abrupta por causa de irregularidades financeiras detectadas na gestão do projecto e arrasta consigo o cancelamento de todos os seus projectos.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Olivais Vivos: intervir na Quinta das Laranjeiras



Já o projecto Olivais Vivo tinha algum tempo de desenvolvimento, foi sugerido que fossêmos a uma zona problemática. Até aí tinhamos andado por zonas mais ou menos amenas, Vale do Silêncio, Largo das Mamas, Largo do Ferrador, Largo na Rua Cidade da Beira, desta vez sugeriram-nos uma intervenção na Quinta das Laranjeiras, numa zona dominada por dealers e consumidores. Reunimos o quartel-general das expressões e do desporto, íriamos todos em conjunto. Começámos por uma pequena animação - as velhotas diriam, uma pequena palhaçada - e depois fomos tentando pegar os jovens para o trabalho connosco. A certa altura percebo que não posso continuar ali. Das varandas há olhares hostis, a medirem-nos, a ver se temos medo, se amedrontam estes doutores da mula russa. O chão está cheio de seringas, os dealers estão com ar desconfiado, tudo aquilo me deprime. Tenho de fugir e o mais rapidamente possível. Como sempre, faço-me de tonto, olho para uma pequena abertura entre os prédios, vejo uma espécie de descampado, pergunto para um grupo de miúdos que estavam ali (entre o medo da chacota que vinha das janelas e das varandas para o pátio e a fuga à realidade que aqueles tipos esquisitos pareciam poder porporcionar) :
- Aquilo vai dar aonde?
Os miúdos ficam orgulhosos. Aquilo é o bairro deles, o ponto de fuga para a zona oriental, para os contentores, para o brincar vadio à beira rio.
- E vai-se por ali? - insisto, com o meu ar de deslumbrado.
- É já ali embaixo.
Afasto-me, na direcção do caminho, sei que vêm atrás de mim. Faço sinal a uma das animadoras da equipa de rua, ela percebe que eu saio com eles. Já estamos fora do pátio, dos olhares trocistas, das vidas rodadas num vira-destinos que quase nunca cai para o lado do sol.
- E pode-se ir a pé?
Passam a ser eles a explicar. Eu já sinto o cheiro da terra, da folhagem, o rio ao fundo reorganiza-me, a partir de agora, há medida que os passos nos afastam da zona mais tensa do bairro também mando eu:
- E se escolhessemos cada um o nosso personagem?
- Um quê?
- Quando eu era puto tinha um grupo de aventuras e todos tinhamos um nome de guerra...
- Claro, eu sou o...
E começaram aí a escolher o nome. Ainda não tinhamos chegado aos contentores, já tinhamos uma canção e um grito comum.
- Podemos fazer uma bandeira, João?
Claro que podemos, podemos fazer tudo. E fazemos quase tudo. Eu troco brincadeiras antigas, atirar pedras ao rio, escondermo-nos, com outras, que eles me trazem, subir aos contentores, dizer palavrões, gritar. E ao fim de uma hora e tanto voltamos. Eles inventam cada vez mais promenores sobre o grupo. Eu sinto-me feliz, muito feliz. Não fiz nenhuma das actividades de expressão dramática que deveria ter feito, mas tinha conquistado o grupo:
- Voltas, João?
- Só volto se vocês me mostrarem um sitio giro.
E marcámos logo ali um novo encontro. Ainda não sabíamos mas tinha nascido ali a Malta das Ideias.

Olivais Vivos: animar o Vale do Silêncio


imagem:josé soudo

No princípio dos anos noventa surgiu nos Olivais um projecto vinculado ao Contigo Vais Longe, o Olivais Vivo, que tinha várias componentes: animação desportiva e animação da área das expressões (dança, expressão musical e dramática) e algumas características distintivas, entre as quais uma equipa de rua, que apoiava o trabalho dos animadores das várias áreas, investindo na relação e na informação. Fui chamado a colaborar na área da expressão dramática embora, dada a dinâmica criada, tivéssemos todos nós participação num colectivo que integrava todas as valências do projecto e em que era discutida muita da estratégia seguida. O Olivais Vivo acabou por ter um final diferente do previsto (irregularidades financeiras imputadas à vereadora responsável pela coordenação do mesmo levou à alteração abrupta do modelo que estava a ser seguido), e independentemente do constante processo de análise crítica que fazíamos, funcionou para mim como um espaço de experimentação de práticas de animação que ainda hoje valorizo, como por exemplo, a da articulação entre actividades de rua (grande parte delas no Vale do Silêncio) e actividades em espaço fechado (ateliês, prática desportiva, ginásios, escolas). E mais do que isso, um regresso aos Olivais, local do qual eu estava, por causa da minha actividade profissional, muito afastado, acabando também por ser nessa altura que desenvolvo, com o grupo de teatro da paróquia, um projecto teatral a partir de vivências e histórias dos olivais. Para além de ter sido aqui que, através do projecto Malta das Ideias, a minha intervenção deu um salto qualitativo muito grande (eu nesta altura ainda estava muito preso à minha afirmação profissional, era actor, animador de expressão dramática, e precisava que essa distinção técnica marcasse as minhas relações não só com a entidade que me pagava, o que até seria natural, mas também com o grupo). Creio que foi muito por estar a trabalhar em casa que eu senti um outro tipo de apelo e ligação e é assim que a partir do projecto Malta das Ideias percebi realmente o que é que realmente queria andar a fazer pelo território da animação sócio cultural.