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quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Olivais Vivos: animar o Vale do Silêncio


imagem:josé soudo

No princípio dos anos noventa surgiu nos Olivais um projecto vinculado ao Contigo Vais Longe, o Olivais Vivo, que tinha várias componentes: animação desportiva e animação da área das expressões (dança, expressão musical e dramática) e algumas características distintivas, entre as quais uma equipa de rua, que apoiava o trabalho dos animadores das várias áreas, investindo na relação e na informação. Fui chamado a colaborar na área da expressão dramática embora, dada a dinâmica criada, tivéssemos todos nós participação num colectivo que integrava todas as valências do projecto e em que era discutida muita da estratégia seguida. O Olivais Vivo acabou por ter um final diferente do previsto (irregularidades financeiras imputadas à vereadora responsável pela coordenação do mesmo levou à alteração abrupta do modelo que estava a ser seguido), e independentemente do constante processo de análise crítica que fazíamos, funcionou para mim como um espaço de experimentação de práticas de animação que ainda hoje valorizo, como por exemplo, a da articulação entre actividades de rua (grande parte delas no Vale do Silêncio) e actividades em espaço fechado (ateliês, prática desportiva, ginásios, escolas). E mais do que isso, um regresso aos Olivais, local do qual eu estava, por causa da minha actividade profissional, muito afastado, acabando também por ser nessa altura que desenvolvo, com o grupo de teatro da paróquia, um projecto teatral a partir de vivências e histórias dos olivais. Para além de ter sido aqui que, através do projecto Malta das Ideias, a minha intervenção deu um salto qualitativo muito grande (eu nesta altura ainda estava muito preso à minha afirmação profissional, era actor, animador de expressão dramática, e precisava que essa distinção técnica marcasse as minhas relações não só com a entidade que me pagava, o que até seria natural, mas também com o grupo). Creio que foi muito por estar a trabalhar em casa que eu senti um outro tipo de apelo e ligação e é assim que a partir do projecto Malta das Ideias percebi realmente o que é que realmente queria andar a fazer pelo território da animação sócio cultural.

sábado, 22 de setembro de 2007

Um Gajo dos Olivais

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

É para os putos que não querem comer a sopa! *


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" O Ai-Ai era uma das alcunhas, porventura a mais generalizada de Ricardo Santos Carvalho, célebre reclamista e vendedor de esticolicas (rebuçados estreitos e compridos) que percorria Lisboa com os seus pregões. Era um homem delgado, franzino. A sua fraca compleição não o impedia de palmilhar Lisboa de uma ponta a outra, principalmente os bairros populares.
Um dos seus pregões mais conhecidos era o ´"É para os putos que não querem comer a sopa!" o que ajuda a compreender o perfil deste personagem castiço, dando-nos conta, quer da sua língua afiada, quer do modo como era considerado persona non grata por muitos pais que pretendiam evitar o contacto dos seus filhos com esta figura.

O certo é que ele , que vestia sempre de branco, arrastava atrás de si a miudagem, que tentava roubar-lhe os chupas e rebuçados. Assassinado, ao que consta vitima de um assalto que lhe foi fatal, e que terá rendido meia dúzia de tostões, o Ai-Ai não tinha paradeiro conhecido, embora alguns dos habitantes mais antigos ainda afiancem que ele vivia para os lados do Pote de Água (Rotunda do Aeroporto de Lisboa).

Há também a indicação de que ele participou numa revista no Teatro Apolo (a "Bolacha Americana", onde se representava a si próprio), que estreou nos primeiros dias que se seguiram ao armistício que, em Maio de 1945, assinalou o fim da 2ª Guerra Mundial, e onde tinha como parceiros de cena, entre outros, Costinha, Hermínia Silva e Carmencita.

Outro personagem, o Urié, também existe no bairro dos Olivais, em Lisboa. Há muito que trocou a árvore pelos autocarros, a Carris ofereceu-lhe uma farda (o seu passe vitalício). Também nunca mais foi visto a vender jornais (do dia anterior) na Rotunda do Aeroporto."



*[Em 1990, na sequência de um trabalho de animação teatral com um grupo de teatro da paróquia de Santa Maria dos Olivais, resultou um texto, "É para os Putos que não querem Comer a Sopa!", que venceu o 1º Premio de Textos de Teatro do 1º Concurso Cultura e Desenvolvimento, do Clube Português de Artes e Ideias e do Instituto da Juventude, cujo título glosava um dos pregões mais conhecidos do Ai-Ai. Do pórtico desse texto - com autorização do autor - retiro esta pequena informação sobre os personagens "reais" daquela peça.]