domingo, 25 de outubro de 2009

A menina do cão do fiat



Não tivesse vindo cá abaixo buscar as compras que a minha mãe deixara no carro e provavelmente nem repararia naquela inscrição feita na parede do meu antigo prédio, na rua cidade João Belo. Estava noite, o que para além de dificultar a própria memória fotográfica também acrescentou algo de misterioso à mensagem que se ligou, invisivelmente, a mim, ao modo platónico como vivi a minha adolescência nos Olivais. Espero - para reconforto do anónimo apaixonado - que a rapariga do cão do fiat se tenha enternecido tanto com a mensagem como eu.
Não era o Amo-te Daniela, que tantas vezes encontramos grafitado ou desenhado nas paredes, sem um pingo de sensibilidade, de reserva, com aquele desvairio adolescente que faz com que pensemos que as pessoas a quem dizemos que amamos são nossa posse. Não, quem escreveu aquilo ama na sombra. Nem nunca se aproximou o suficiente do objecto da sua paixão. Se o tivesse feito, teria, num dia de sorte, ouvido o seu nome gritado de uma janela, de uma varanda, de um extremo da rua. Sempre se falou alto nos Olivais. Não, o amante é sibilino. Esconde-se, na noite, nas tardes, nas manhãs. Vê-a partir e regressar todos os dias, no seu fiat. Não é um wolksvagen, um opel, um citroen, um peugeot. É um fiat, italiano, temperamental, romântico. A menina do fiat faz parte de um universo sentimental, eivado de romantismo. Ao escrever isto, é como se eu mesmo estivesse a espiar esta história, esta pequena história de amor. Ele, o amante da menina do fiat, espera que ela vá passear o cão, acompanha-a. O que o revela na paisagem humana do bairro. Se o lugar ainda mantém as características daquele onde vivi a adolescência, há dois grandes tipos de pinga-amores que contribuem para o exarcebar amoroso que sempre caracterizou a vida entre oliveiras. Aqueles que, como eu - já me denunciei atrás, agora é tarde para desfazer- que, na sua timidez e acabrunhamento se escondem entre a sombra para ficar ali a ver as horas do seu tempo, do seu enamoramento. E os que - como por exemplo o Bafatá - tentariam arranjar logo um canídeo (comprassem-no, pedissem-no emprestado, atassem uma corda como coleira ao primeiro vadio que encontrassem), para poderem entabular uma conversa que, como um cerco, faria com que a menina do fiat passasse a ser mais uma letra no abecedário dos nossos rudolfos valentinos. Não, o amante inconfessável da menina do cão do fiat, treme só de pensar que a sua amada possa descobrir quem ele é, a sua identidade. No seu anonimato não pode no entanto deixar de lhe dizer que a ama. Ele quer que ela se sinta amada. Que saiba que é amada. É assim a imensa generosidade da platonia: consome-se num ardor, numa incandescência amorosa que não exige nada em troca, mas que tem de partilhar a sua existência apaixonada. E é como se sussurasse: menina, menina do cão, menina do fiat. Para que ela, todos os dias quando sair ou regressar a casa, possa saber que há alguém, tão doce que trata a rapariga por menina, que a ama sem pedir nada em troca. A quem basta apenas o desfiar da página de um romance vivo, feito de passeios com o cão ou voltas no fiat. É pouco? Não, é tudo. A menina do cão do fiat e o seu secreto amante estão à altura das mais altas tradições romanescas do bairro.

8 comentários:

kiff-kiff disse...

...como mais esta mensagem que diz do amor aos olivais sem ter de o alardear.

maria correia disse...

Que texto enternecedor João Belo! Amo-te, Menina do Cão do Fiat dava um título para um conto! Dá vontade de dizer que espero que este apaixonado e a menina do cão do Fiat tenham sido muito muito felizes, naquela felicidade dos contos de fadas, felizes para sempre!
Obrigada por tão belo texto!

Anónimo disse...

Nada tem a ver com o texto, mas que ao longo das várias conversas tenho verificado que temos determinados tiques, muito tipicos dos olivais. Aqui está mais um, que passo a vida a ser criticado, em casa, no trabalho, no grupo de amigos que não são dos Olivais. Falar alto - " Sempre se falou alto nos Olivais". Nunca percebi porque falo alto, na verdade foi um bom ou mau hábito que ficou. São vários os tiques que temos, de linguagem, de comportamento de gosto. Os Olivais são mais que um simples bairro, teve uma cultura propria, uma linguagem própria, modas, ....
Paulo - Rua 1

maria correia disse...

Tem razão o Paulo da Rua 1...se calhar falávamos alto por o bairro ser amplo, havia espaço, nada era acanhado, via-se o céu e muitas árvores; já agora, creio que um dos «tiques» é ter gostado e continuar a gostar do bairro (e também já fui criticada por isso)...quem lá viveu gostou de lá viver. Não tem a ver como o bairrismo dos bairros populares e antigos, é outra coisa que de momento não consigo explicar...mais nobre.

alex disse...

belíssimo texto. :)

Anónimo disse...

É verdade Maria, já não vivo nos Olivais há 19 anos, no entanto continuo a defender o MEU BAIRRO, um bairro com uma plano urbanistico, social, económico. Em que havia espaço entre as casas e entre os prédios, zonas verdes para jogar à bola, etc, etc. Nunca mais se fez um bairro assim em Portugal. Os ideais da Convençao de Atenas, que forma aplicados nos Olivais, deixaram de o ser por motivos financeiros. Naquela época havia espaço e dinheiro, foi uma época d'ouro de grande sprojectos.
Continuo a defender os Olivais, infelizmente hoje, quando vou a casa dos meus Pais, já não vejo aquela massa de miudos que corriam de um lado para o outro, que jogavam à bola na rua. Ninguém vem para a Rua. O Medo tb chegou aos Olivais. Paulo

maria correia disse...

Acabei de ler o último comentário, assinado por Paulo...é isso precisamente o que penso, paulo, nunca mais se fez um bairro assim em Portugal inteiro. Foi d efacto um aépoca d eouro, por mais estranho que pareça o bairro foi começado no tempo de Salazar ainda. Uma da sideias base era a de acabar com as diferenças entre «ricos» e «pobres» e fazer uma bairro em que todos se integrassem. E integraram, para o mal e para o BEM! e isso faz parte do sentimento d enobreza a que me referia, não se trata de bairrismo barato. Sei bem o que é ir aos Olivais agora, os Olivais ...desertificados das pessoas que pululavam por aquelas ruas e arruamentos há vinte e tal anos. Muito haveria ainda a dizer sobre isto...

m disse...

Bom Dia João!
Por aqui, nos lotes 200 e tal, havia um TAG muito bonito tb: qualquer coisa como "escrever nas paredes não é crime, percebes ò bófia?!" Tenho um bom arquivo de fotos low-fi deste tipo de motivos nas redondezas. É só encontrar a pasta entre discos externos e logo partilho.

Atentamente...
1800-104 lx.