quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Intervalo para almoço


Telefono para casa. Para falar com a minha mãe. Apeteceu-me. Vou almoçar, antes disso fiz uma pausa, vim até ao Olivesaria, um sentimento de amizade invade-me sempre que aqui venho, amizade e história, a minha história, de repente lembrei-me da minha mãe, por onde parará?, ligo para casa. O atendedor de chamadas é o primeiro a chegar ao telefone. Ligo para o telemóvel. Estou a conduzir, meu filho, diz ela, não é urgente, é só para te dar um beijinho, respondo, para te dizer que te amo, penso de mim para mim, que preciso da minha árvore, o fim do século XX, que acabou, soube pelo JPT, ainda não me fez o homem-robot que antevi ser quando chegasse ao ano 2000.

Ocorrem-me sabores entretanto. A tortilha espanhola que a minha mãe fazia tão bem. A sopa de feijão vermelho com couve portuguesa. O empadão de carne, com a pele a estalar. O souflé de peixe. E, para lá dos sabores, o tempo. O que de mais importante me lembro é a sensação do tempo a abrir-se, a espraiar-se, a lentificar-se. Como este pequeno devaneio.
Ainda sou o mesmo, um tipo que chega ao momento de ir almoçar e que, enquanto fecha o expediente do serviço, se apercebe que, por maior romantismo que ponha na forma como olha o seu dia-a-dia, se tornou naquele burocrata que ridicularizava aos seus vinte anos. E que depois levanta a cabeça, como a avestruz, agarrando o gôle de ar que, durante todo o dia, fará a diferença. Como diz o , descubro uma nova e não catalogada forma de heroísmo, sobreviver à minha ideia juvenil de mundo. E é assim, com a cabeça levemente inclinada sobre o olival, que saio, estupidamente feliz, reizinho do meu mundo, para o lado de fora deste teatro onde quase nada do que é, parece.

domingo, 25 de Outubro de 2009

A menina do cão do fiat



Não tivesse vindo cá abaixo buscar as compras que a minha mãe deixara no carro e provavelmente nem repararia naquela inscrição feita na parede do meu antigo prédio, na rua cidade João Belo. Estava noite, o que para além de dificultar a própria memória fotográfica também acrescentou algo de misterioso à mensagem que se ligou, invisivelmente, a mim, ao modo platónico como vivi a minha adolescência nos Olivais. Espero - para reconforto do anónimo apaixonado - que a rapariga do cão do fiat se tenha enternecido tanto com a mensagem como eu.
Não era o Amo-te Daniela, que tantas vezes encontramos grafitado ou desenhado nas paredes, sem um pingo de sensibilidade, de reserva, com aquele desvairio adolescente que faz com que pensemos que as pessoas a quem dizemos que amamos são nossa posse. Não, quem escreveu aquilo ama na sombra. Nem nunca se aproximou o suficiente do objecto da sua paixão. Se o tivesse feito, teria, num dia de sorte, ouvido o seu nome gritado de uma janela, de uma varanda, de um extremo da rua. Sempre se falou alto nos Olivais. Não, o amante é sibilino. Esconde-se, na noite, nas tardes, nas manhãs. Vê-a partir e regressar todos os dias, no seu fiat. Não é um wolksvagen, um opel, um citroen, um peugeot. É um fiat, italiano, temperamental, romântico. A menina do fiat faz parte de um universo sentimental, eivado de romantismo. Ao escrever isto, é como se eu mesmo estivesse a espiar esta história, esta pequena história de amor. Ele, o amante da menina do fiat, espera que ela vá passear o cão, acompanha-a. O que o revela na paisagem humana do bairro. Se o lugar ainda mantém as características daquele onde vivi a adolescência, há dois grandes tipos de pinga-amores que contribuem para o exarcebar amoroso que sempre caracterizou a vida entre oliveiras. Aqueles que, como eu - já me denunciei atrás, agora é tarde para desfazer- que, na sua timidez e acabrunhamento se escondem entre a sombra para ficar ali a ver as horas do seu tempo, do seu enamoramento. E os que - como por exemplo o Bafatá - tentariam arranjar logo um canídeo (comprassem-no, pedissem-no emprestado, atassem uma corda como coleira ao primeiro vadio que encontrassem), para poderem entabular uma conversa que, como um cerco, faria com que a menina do fiat passasse a ser mais uma letra no abecedário dos nossos rudolfos valentinos. Não, o amante inconfessável da menina do cão do fiat, treme só de pensar que a sua amada possa descobrir quem ele é, a sua identidade. No seu anonimato não pode no entanto deixar de lhe dizer que a ama. Ele quer que ela se sinta amada. Que saiba que é amada. É assim a imensa generosidade da platonia: consome-se num ardor, numa incandescência amorosa que não exige nada em troca, mas que tem de partilhar a sua existência apaixonada. E é como se sussurasse: menina, menina do cão, menina do fiat. Para que ela, todos os dias quando sair ou regressar a casa, possa saber que há alguém, tão doce que trata a rapariga por menina, que a ama sem pedir nada em troca. A quem basta apenas o desfiar da página de um romance vivo, feito de passeios com o cão ou voltas no fiat. É pouco? Não, é tudo. A menina do cão do fiat e o seu secreto amante estão à altura das mais altas tradições romanescas do bairro.

segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

Da Jovialidade dos Cafés dos Olivais

Era uma vez, once upon a time, il était une fois, es war einmal, (em todas estas línguas aprendi a falar nos Olivais)...meia dúzia de cafés num bairro jovial...Eis alguns dos nomes de que me recordo dos famigerados cafés dos Olivais, lugares muito vivos de encontros, convívios, troca de olhares, murmúrios sobre este e aquela, centros de decisão de aventuras e caminhadas, cinemas e bulícios, revoluções e evoluções, teatros (Comuna) e concertos (Cascais Jazz, festa do Avante de outros tempos, concertos Gulbenkyan, Hot Club, ai, aquela Praça da Alegria de alegre memória jazística), praias e piscinas, festas em «casa de» e passeatas românticas no Seminário dos Olivais, pontos de reuniões múltiplas e, por vezes, centros de acesso a outras maravilhas, entre uma bica ou uma imperial com tremoços (ainda existem os tremoços?), um cigarro e um sorriso, gargalhadas de inverno e primavera, uma rápida leitura ao jornal...O «Tó», o «Cheira Mal» (este tinha também outros nomes, creio que também lhe chamavam «Rescumenga» e o «Zé»), o «Belo Horizonte», a «Nanu», o «Gordo» (nunca lá entrei mas sei que era famoso, sabe-se lá porquê...), o «Cabeça de Touro» do famigerado corvo, negro e atiradiço, de bico amarelo pronto à mordidela, o Sorraia (sempre muito queque), um outro café no largo do Sorraia e de que não me lembro o nome, mais tarde alargaram o espaço de baixo e fizeram esplanada fechada onde serviam um belo cozido à portuguesa, e, lá para o Norte, um tal Tábuas, onde entrei uma vez ou duas, aquilo era do clã do Norte...Todos eles passaram por várias fases de remodelação estrutural e humana. A fauna humana também variava de café para café, o Tó começou por ser «queque» e o «Rescumenga» menos «queque», mas, mais tarde equilibraram-se, ao bom estilo do bairro dos Olivais, bairro criado para todos os estilos e feitios e tipos de jovialidade. O «Tó» tinha a vantagem de possuir uma pequena papelaria onde comecei por comprar Tio Patinhas e folhas de cartolina para os Trabalhos Manuais, depois Tintins, postais de aniversário e cadernos espiralados e, mais tarde, o Sete, de boa memória, que me informava de tudo o que era concerto em Portugal, e o famigerado SG Filtro, que vim a abandonar em favor do Português Suave. O «Tó» era suave...O «Cheira Mal», menos suave, pululava de imperiais e tremoços e de muitas beatas no chão, mas tinha um ar alegre airoso no meio da confusão do futebol, por vezes, transmitido lá pelo televisor no alto (antes era a preto e branco, agora é todo preto e moderno e a cores, plasma, acho eu). Era menos suave, mas regurgitava vida. O Sorraia... bem, era o Sorraia, lugar de lanches familiares com aquela belíssima pastelaria e o bolo-rei do Natal, muito bom, ainda hoje por vezes o lá compro. O Nanu também balançava entre estilos de fauna, sempre muito animado e comprido até lá ao fundo, a começar pela esplanada, ali, a dar mesmo para o 21. Perto do Nanu, havia o «da dona Rosa», mais tasquinha, com uns belos caracóis de Verão...Ah, e por caracóis e caracoletas grelhadas evoco aqui o meu querido Palmeiras, lá para os Olivais Velho, zona linda e antiga, pequenina, com igreja e palmeira e tudo, onde ainda hoje vou, gosto da esplanada, do sol, da palmeira, dos caracóis em Julho e dos «secretos» no Outono, lá dentro...Pois do «Gordo» pouco poderei dizer, a não ser que era famoso, sabe-se lá porquê...um dia cheguei lá perto, aquilo era uma roda viva de gente a entrar e a sair, todos muito atarefados...O Belo Horizonte também me foi simpático, recordo umas tardes de Verão lá fora, na esplanada, a fauna também mista, via-se de tudo, mas era também algo suave...O Tábuas tinha nome, quando o clã do Norte falava do «Tábuas», a curiosidade minha, eu, do clã do Sul, despertava, era como se algo de esotérico lá se passasse...enfim, havia uma certa ideia de que o clã do Norte era uma espécie de elite aristocrática. O «cabeça de Touro» era onde iam «lanchar» outras famílias, um lanche mais virado ao caracol e à imperial do que aos requintados bolitos do Sorraia, havia sempre muitos homens de bigode e camisa deslavada, cheirava a cerveja entornada e a vinho tinto e não era bem lugar que se «frequentasse» até...se equilibrar também. Sofisticou-se. Já não há barris de vinho derramado e o corvo andará por outros céus. Tenho memória de uma certa manhã no «Cheira Mal», onde olhei olhos nos olhos os olhos mais azuis da minha vida, de uma tarde no Tó, a discutir a revolução de Abril, aos quinze anos, de uma noite na Nanu onde um grupo alegre, jovial, pois então, o meu, entrou só para comprar uma garrafa de whisky para continuar a noite, de um anoitecer na «D. Rosa» nos caracóis, depois da praia, com um livro do Alberto Caeiro cheio de areia nas mãos e uma espécie de desgarrada do «Guardador de Rebanhos», de um belo fim de tarde de Verão, no «Belo Horizonte», com um gupo animado, em alguém me fez um elogio amigável que me deixou feliz, de um jantar no «cabeça de Touro», já no tempo da sofisticação e do cozido à portuguesa, das manhãs em que nos encontrávamos e, indecisos, não sabíamos bem se continuaríamos a conversa e os cigarros pelos cafés ou em casa de alguém...enfim, outras eras, antes dos cafés virtuais em que toda a gente fala mas ninguém se vê. «Foste aoTó? Viste o João? A Ana apareceu?»...«Vai ter ao Nanu, depois falamos»...«Aparece no Cheira Mal logo à tarde»...«'Bora, vamos ao Belo Horizonte»...Hoje em dia é mais: «foste ao Olivesaria? «Já viste o que está no A ver O Mundo?»..«Ah, vai ao Bibliotecário da babel e verás!»..«Há muito que não vou aos Amigos de Alex, e tu, tens ido?»...As vozes ecoam agora no ciberespaço, mais do que nos cafés onde deixei de ir, com pena.
Muito poderia ainda dizer sobre os cafés dos Olivais, pelo menos, daqueles que melhor conheci, mas a ideia apanhou-me num relâmpago e resolvi colocar tudo isto já a preto e branco antes que a memória me leve as imagens e os nomes, as tardes e as noites, o cigarro, a imperial e a bica e os rostos de todos aqueles que conheci e vejo ainda ou deixei de ver, uns levados pela vida, outros pela morte e que saudades. Os donos também eram umas figuras, uns mais bem-humorados do que outros. Creio que o senhor António era o dono do Tó e o senhor Zé era o dono do «Cheira Mal»; dos outros, não me recordo ou nunca soube a quem pertenciam. Não faz mal. os cafés não se importam, mudam de dono e de nome como quem não quer a coisa, mas guardam a memória milimétrica das coisas nas paredes, no chão, no tecto, num algures espacial sem nome. Um dia destes, vou aos Olivais e farei uma ronda pelos cafés, só para ver como as coisas estão. Sei que já lá não te encontrarei, amigo, mas fica para a próxima...vida. Até já.
por Maria Correia

sábado, 15 de Agosto de 2009

"Há sempre um olivalense à tua espera"‏

Sempre soubemos que partissemos para onde partissemos, aportassemos onde aportassemos, sempre se encontraria "alguém dos Olivais" - coisas de crescer naquela que, mito ou não, era dita a maior freguesia da Europa (e isto já quando o maior centro comercial do país era o Apolo 70). Enfim, não me quero afastar da questão, essa de fosse onde fosse "haver sempre um olivalense à tua espera". E logo um taco arranjado, uma companhia cruzada, um cigarro (de qualquer coisa) partilhado, no fundo uma segurança tribal. Vem-me isto a propósito do que me aconteceu há não muito, avançar até ao Lumbo, fronteiro à Ilha de Moçambique, abancar num panquê fantástico quase à sombra do embondeiro, e naquela margem índica encontrar, inesperadamente, dois legítimos olivalenses, um tal de kiko, aproximado aos da catió, confidenciou, e um outro zézé, dos betos da bolama, reclamou.

por: Bolama


segunda-feira, 10 de Agosto de 2009

Foi em 1965 que os meus pais tomaram a decisão: mudar da Avenida do Brasil para os Olivais Norte. Eu era muito pequeno, mas contaram-me do que então se falou. Que os Olivais eram longe, reclamava a minha avó, que quase não havia transportes para lá, e que o prédio – onde vivi até aos meus 27 anos – era uma corrente de ar de tão aberto. A favor, no entender dos meus pais, as casas serem enormes e nem por isso caras (havia o regime da habitação económica).
O facto é que a 20 de Junho de 1965 (sei a data de cor por ter sido na véspera de fazer três anos) eu, os meus dois irmãos mais velhos e os meus pais passámos a dormir num novo território, quase sem carros, com matagal a envolver ruelas. Mesmo à frente da minha casa, um poço fazia as delícias dos “ciganos” – nome a que baptizávamos todos os miúdos pobres que desafiavam a nossa segurança. Recordo-me bem desse poço ainda aberto, com duas tábuas de aspecto duvidoso (leia-se podres) em cima, e das lendas que o acompanhavam. Por entre as tábuas atirávamos pedras para tentar perceber a sua profundidade. Era fundo.
Já não sei dizer quando é que a CML decidiu “recuperar” o poço e as arcadas, vestígios de uma quinta secular dos Olivais. Éramos miúdos mas ficámos horrorizados com o resultado, de tal forma que – lembro-me – termos comentado que para terem feito aquilo mais valia terem deitado as “ruínas” abaixo.
Nao me parece que a nossa irritação tivesse a ver com uma consciência patrimonial, mas talvez com o facto de terem tirado magia ao nosso brinquedo.
Mas, adiante, com o tempo – e o fim das barracas que envolviam o bairro -, as ruínas cada vez foram mais um espaço nosso, dos putos que viviam nos prédios altos da Rua General Silva Freire. Era ali que escondíamos os maços de cigarros, nas heras que trepavam pelas arcadas, e em cima do tampo do poço – já devidamente cimentado – conversávamos sobre tudo e nada até altas horas.
Nessa altura já o capim dera lugar à relva, onde as árvores eram colocadas – a nosso ver – para estragar os nossos campos de futebol. Conclusão: à noite íamos com uma serra e cortávamo-las (a prova de que a ecologia era para nós uma ideia distante). Dias depois, novas eram plantadas e assim se fazia o jogo do rato e do gato.
Também as ruínas serviam as “forças de autoridade”, que ali se escondiam para tentarem fazer “refém” a nossa bola, uma vez que a nós dificilmente apanhavam. É que era proibido jogar à bola na relva, e por essa "perigosa transgressão" várias vezes nos levaram para a esquadra. Numa delas - não tínhamos mais do que 13, 14 anos -, fomos o caminho todo a insultar um polícia que tinha tirado a pistola do coldre para nos deter. Ele, o polícia, já nem sabia onde se meter, presumo (ou quero presumir) consciente do abuso que tinha acabado de cometer, talvez motivado pelo desespero de dias sem nos conseguir meter as mãos em cima. Um de nós, que se “esticou” mais nas queixas, ficou detido durante algumas horas na esquadra da Encarnação e teve que ser o pai a tirá-lo de lá.
Tantas histórias daquele lugar me enchem a memória. Os frutos vermelhos que arrancávamos dos arbustos e que comíamos como sendo o nosso “remédio”, as cenas de pedrada com os “charlôs” que viviam nos prédios brancos em cima dos nossos – e que por isso tinham logo a vantagem geográfica do lado deles – e, claro, as primeiras paixões vividas nos arredores daquele poço onde um dia alguém me iniciou no tabaco. Travei o cigarro todo para me fazer homem, apesar dos meus parcos 11 anos, deitei-me e vi as ruínas a girarem a mil à hora. Com aquela idade, já podia palmilhar o bairro todo - nas férias só ia a casa para comer e pirava-me rapidamente - sem que os meus pais se preocupassem. E se calhar boas razões teriam para isso.
Os anos foram passando e os disparates aumentando, especialmente com o advento do PREC. Criámos o MRLO (Movimento Revolucionário de Libertação dos Olivais), pichámos tudo o que era paredes com as siglas do movimento e era, claro, no poço que reuníamos o Comité Central. Vieram as primeiras bebedeiras, inauguradas em casa de um amigo cujos pais estavam para fora. Decidimos experimentar um pouco do líquido de cada garrafa que eles tinham na garrafeira e horas depois pensei que ia morrer. Mais tarde, as motos, e com elas o reencontro com as forças da autoridade, com as suas Casal Boss atrás de nós num novo jogo do gato e do rato.
Hoje, quando volto ao bairro - onde os meus pais ainda vivem - desconsola-me a total ausência de crianças a brincar na rua. Em cima da nossa relva, repousa há demasiados meses um estaleiro que dará origem a uma nova estação de Metro. Entendo a vantagem de tal coisa quando um dia esteja a funcionar, mas não deixo de me arrepiar com o inevitável bulício que irá trazer àquela zona, que ficou para a história como a forma mais pura do modelo corbusiano (saído da Carta de Atenas) alguma vez experimentado em Portugal.

enviado por: Pedro Prostes da Fonseca

sexta-feira, 7 de Agosto de 2009

A Junta de Freguesia de Santa Maria dos Olivais e o Instituto IDEIA, têm a honra de convidar sua Excelência para a inauguração da exposição "Bordados de Castelo Branco" por Isabel Moreira.
A artista, do nosso bairro, mostrará que a tradição e elegância será sempre compatível e actual.
Dia 10 de Agosto, pelas 19h00. Será servido um cocktail.
Casa da Cultura dos Olivais
Rua Conselheiro Mariano de Carvalho, 68 (Olivais Velho)
Recebido de:
Cláudia Monteiro
Gestora da Casa da Cultura dos Olivais

terça-feira, 4 de Agosto de 2009

SESIMBRA














Aproveito o embalo imparável do Bolama e carimbo o verão com um “post” de fato de banho e chinelos.
Sempre que o verão reclama as primeiras imperiais, lembro-me invariavelmente de Sesimbra.
Dos 13 aos vinte e poucos anos, era lá que “descansava” da minha (in)actividade escolar. Aliás, sempre me esforcei bastante para que a vida de estudante não fosse demasiado absorvente, de modo a que os 4/5 meses de férias (conquista de Abril que todos muito apreciávamos) fossem suficientes para recuperar energias. Era de tal forma prolongada a nossa estadia por aquelas bandas que contribuíamos para o ferrolhar do verão, ajudando o velho banheiro Jacinto no final da época, a desmontar a praia e a transportar os toldos e cadeiras para o armazém onde repousavam no inverno.


No fim das aulas, a família mudava-se para Sesimbra e iniciava-se o ritual veraneante.
Mas não ia sozinho. Eram muitas as famílias dos Olivais (e de outras paragens também, mas essas não contavam) que o faziam.
Relembrando esses tempos verifico com curiosidade que apesar da distância geográfica o espírito dos Olivais permanecia.
Pela manhã, na praia do Jacinto, um antigo pescador convertido à terciarização, alvo constante da irreverência juvenil (expressão linda para descrever o que lhe fazíamos), iam chegando as famílias com os farnéis preparados para uma jornada completa de sol e mar. Quanto a nós, de chegada mais tardia, ocupávamo-nos em futeboladas ligeiras, campeonatos de frisbee, caça submarina, cartadas e tudo o mais que se faz e não faz, na idade em que o tempo não tem tempo (com “tiradas” destas ainda me arrisco a ser convidado para ghost writer do nosso primeiro ministro quando este resolver escrever as suas Memórias do Cárcere...).
A propósito de caça submarina, recordo um episódio em que andávamos eu e outros oliveiras, perscrutando de arma em riste os mares sesimbrenses em busca de incautos linguados ou chocos distraídos. Naquele dia porém, os marinhos estavam particularmente astutos e não lhes parecia boa ideia passar do estado molhado para o estado grelhado. Decidimos então deslocar-nos para junto das rochas na expectativa de “convencer” algum polvo simpático que por lá andasse dos méritos da vida em terra firme. Debalde…
Um de nós, mais incomodado com o insucesso da pescaria, encontrou, numa subida à superfície para respirar, a solução para a sua frustração.
(façamos uma pausa na nossa empenhada militância em defesa dos animais – não comestíveis, claro…)
Uma pensativa gaivota descansava pacatamente numa rocha quando um arpão de espingarda de caça submarina a atravessou e…

À noite, vivida sempre em bando, “vadiagem” pelas ruas e cafés, como no bairro. Bastante activa e numerosa, era a representação dos Olivais na Confraria do Agrião. Antes da fase “encartada”, contávamos com os prestimosos serviços da empresa de camionagem Covas & Filhos para as nossas deslocações, das poucas que não foi integrada na Roubalheira Nacional, perdão Rodoviária Nacional.

Por lá paravam muitos Bolamas, desde os manos Mateus (disseram-me que são desenhadores num gabinete de arquitectos na Falagueira, mas não confirmei…) até à família “Maracangalha” (sim, também tínhamos amigos cujo pai tinha a sua assinatura nas notas do escudo), passando pelos irmãos Lemos (a um deles, não lhe “perdoo” ter-me iniciados nas visitas à Quinta das Tabuletas, uma semana depois de termos estado juntos um fim de semana em Sesimbra) Lembro-me sempre dele quando oiço dizer que mais vale ser rei por um dia que príncipe a vida toda…. Recordo com estima a família Serôdio, Novos Redondos de boa cepa, com quem partilhei quase todo o meu percurso sesimbrense, e de quem tenho muito boas recordações. Foram muitos aliás, os que partilharam as minhas estórias sesimbrenses e a quem aqui poderia fazer referência.

Da banda sonora destes dias recordo por exemplo os Stones no álbum Tattoo You ou o Patrick Hernandez quando dizia que tinha “nascido para estar vivo”, pensamento que nem a Lili Caneças desdenharia.
por Xai-Xai

Têm visto o Ambrósio?‏

"blue Va Gino was here"


por Bolama

PRÉDIOS NOMEADOS






















Esta é uma velha tradição, a da nomeação dos prédios, uma topografia toponímica que foi caindo em desuso. Nos Olivais escassearam estas imposições, algo que presumo normal numa urbanização cujos lotes se sucederam. Os nomes, tardo-imperiais, ficaram-se pelas ruas.

Por Bolama

sexta-feira, 31 de Julho de 2009

Olivesaria

Estou no campo, lá pela serra da Lousã, ou assim me parece, se calhar perdido. Há dezoito anos, dizem-me, e confirma-mo o tamanho, o brilho, a esperança e a quase-certeza do agora-já-não-bebé que então visitei ... há dezoito anos que aqui não venho. Um dos meus incondicionais, idiossincrático claro, por isso mesmo meu incondicional, até ao Lar se lá chegarmos, já foi dormir, fugido, se calhar titubeante, deste luar apaziguador. Lá dentro repousam, profundas já, as três famílias com que nos rodeamos. Ficamos dois, a ele não visito há dezoito anos, e repito-me. Ele nunca me visitou, e denuncio-o. Quase manhã alta e estamos ao tal luar. Enquanto fala lembro o que com ele aprendi, sem que ele soubesse ou se apercebesse, ou se calhar percebendo como se não desse por isso, um tal de Moebius, o Loustal, e outras coisas mais, mas acima de tudo uma placidez antecâmara de uma varanda que terá feito pequena-história, a da intimidade de homens. Estamos ali, eu agora quarenta-e-cinco, preciso de lembrar, ele ainda mais lamento ter que dizer, há duas décadas ou mais que nem grande coisa entre-nós, ou alguma vez terá havido?, os nossos miúdos conheceram-se hoje, as nossas mulheres (e que belas mulheres nos calharam em sorte, benção do destino?, destino de olivalense?) apenas agora a encontrarem-se, ou tal tacteando, num "afinal?!, ela é assim tanto ...?", nós há duas décadas ou mais que nem grande coisa, e de súbito, naquele luar de campo, está ele a chorar a rir e também eu, lágrimas face abaixo, coisa em mim de há tantos anos, não sei ele, imagino que também, quero imaginar que também, comporá a imagem do momento, mas em mim assim mesmo, há anos que apenas metáfora me era, e eu ali na serra, na casa do meu pampan, a chorar a rir, lágrimas abaixo, às tantas da manhá.

É isto o meu Olivesaria



By Bolama

Captei na página Facebook do "Branca Lucas"

- sim, há Olival nas redes sociais, e mui activo - esta fantástica homenagem ao Aventino Teixeira, coisa da autoria de um outro olivalense já aqui referido, o grande Sam.





























By Bolama

Nada resiste à erosão do-que-vem-aí, da acreditada melhoria

Os Viveiros não só se transformaram em Escola Secundária Eça de Queirós (com s) como estão agora a ser moldados desta forma.

Pelo menos ficará, por enquanto, o velho muro, local de namoro, agrupamentos proto-selváticos, montra de motos e arreganhos, e - claro - de aquisição de haxixe, então dito "produto" ou "brunhol", comercializado às resmas de "pintores". Logo atrás o café (muito atascado, e com mercearia adjacente - vera cantina colonial) do Sô Álvaro, local de flippers e de iniciação aos "submarinos", já feneceu. Quanto ao muro, a julgar pelas inscrições fronteiras, manterá alguma vida.





























By Bolama

Não me ocorre grande prosa, para quê empacotar a evidência histórica?

Quantos olivalenses e adjacentes se adaptaram aos volantes nas mãos dos instrutores da Apolo, ali à Rua Cidade de Cabinda?


























By Bolama

segunda-feira, 27 de Julho de 2009

Venha de lá esse verão, veremos nele a nossa vida

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sexta-feira, 17 de Julho de 2009

Olhar o rio

Sinto-me muitas vezes um privilegiado por viver numa cidade que tem, mesmo à mão de semear, um rio como o Tejo . Para mim um dia, mesmo o pior, reabilita-se com um passeio junto ao rio ou numa daquelas esplanadas que a cidade inventou para o admirar. O Adamastor, o Noobai, a Esplanada da Graça, as Docas, Belém, Terreiro do Paço, Jardins do Tabaco e das Descobertas, o terraço do Hotel do Bairro Alto, Cacilhas, são apenas alguns dos oráculos da minha devoção. Gosto também do passeio pela marginal até Cascais. Desde a adolescência, ainda no carro-família, com os meus irmãos, lembro-me da face ainda marcada pelo sal e o vento a bater, a refrescar-nos. É-me renovadamente estranha a imagem dos barcos a balouçarem na ondulação ténue. Parecem-me ilhas solitárias ali penduradas no território líquido. Imagino sempre, no instante em que este relance de paisagem se atravessa no olhar, que vou numa destas pequenas embarcações. Amo a noite sobre a água, o cheiro da maresia, o barulho das ondas. Não sei bem porquê. Nunca fui grande nadador, nunca velejei. Nem posso colocar na minha carta de navegação - por mais prazer que me tenham dado - as horas que gastei nas viagens diárias de cacilheiro que fazia quando morei do outro lado do rio,. Desde há uns anos que todas as casas onde moro têm, por mais pequeno que seja, um altar onde me entrego a esta sedução pelo Rio Tejo. O mais engraçado é que quase nunca dei pelo rio nos Olivais e também o tinha sempre na minha varanda, no lad0 esquerdo, ali para os lados do Ralis, no enfiamento da ponte Vasco da Gama. Nos Olivais vivi muito e durante bastante tempo. Não é dele no entanto este delírio pelo rio.