"Esta noite vieste visitar-me, como o não fazias há muito tempo.
Enquanto dormia voltei a ser filho.Entraste sorrateiro, tal como fazias para me
mostrar uns versos novos que tinhas congeminado na véspera, desta vez não
bateste de mansinho na porta do meu quarto, entraste e sugeriste tomar um chá de
cidreira, às dez para as cinco da madrugada..."
Ao ler Um chá, pelas cinco da madrugada, ao estremecer diante desta evocação que um filho, um amigo, faz da memória de seu pai apercebi-me, da importância que tiveram para mim os pais dos meus amigos mais próximos e da forma como, sem o saber, fui completando neles a ânsia de referências, de modelos e até do sentimento de protecção que, enquanto cria, precisava . Foram bastantes. Lembro-me das mães lá da rua: a do Xai-Xai, a da Mocha, a do Marco. Dou-me conta de que, excepto a Arlete - mas a Arlete foi essencialmente uma amiga que muitas das vezes esqueciamos ser a mãe do Pedro - nos primeiros tempos as principais referências eram as mães e depois, na juventude tardia, os pais. O pai do Zé, o Maestro Oliveira. O Manuel Alpiarça. O Costa Malheiro, que me fez lembrar - pelo à vontade com que se dava connosco - o meu tio Joca. Entre todos eles este homem franzino, com "esse ar de principe da Baviera", que recordo de tantas conversas e de tantas vezes.