quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Olivais Vivos: intervir na Quinta das Laranjeiras



Já o projecto Olivais Vivo tinha algum tempo de desenvolvimento, foi sugerido que fossêmos a uma zona problemática. Até aí tinhamos andado por zonas mais ou menos amenas, Vale do Silêncio, Largo das Mamas, Largo do Ferrador, Largo na Rua Cidade da Beira, desta vez sugeriram-nos uma intervenção na Quinta das Laranjeiras, numa zona dominada por dealers e consumidores. Reunimos o quartel-general das expressões e do desporto, íriamos todos em conjunto. Começámos por uma pequena animação - as velhotas diriam, uma pequena palhaçada - e depois fomos tentando pegar os jovens para o trabalho connosco. A certa altura percebo que não posso continuar ali. Das varandas há olhares hostis, a medirem-nos, a ver se temos medo, se amedrontam estes doutores da mula russa. O chão está cheio de seringas, os dealers estão com ar desconfiado, tudo aquilo me deprime. Tenho de fugir e o mais rapidamente possível. Como sempre, faço-me de tonto, olho para uma pequena abertura entre os prédios, vejo uma espécie de descampado, pergunto para um grupo de miúdos que estavam ali (entre o medo da chacota que vinha das janelas e das varandas para o pátio e a fuga à realidade que aqueles tipos esquisitos pareciam poder porporcionar) :
- Aquilo vai dar aonde?
Os miúdos ficam orgulhosos. Aquilo é o bairro deles, o ponto de fuga para a zona oriental, para os contentores, para o brincar vadio à beira rio.
- E vai-se por ali? - insisto, com o meu ar de deslumbrado.
- É já ali embaixo.
Afasto-me, na direcção do caminho, sei que vêm atrás de mim. Faço sinal a uma das animadoras da equipa de rua, ela percebe que eu saio com eles. Já estamos fora do pátio, dos olhares trocistas, das vidas rodadas num vira-destinos que quase nunca cai para o lado do sol.
- E pode-se ir a pé?
Passam a ser eles a explicar. Eu já sinto o cheiro da terra, da folhagem, o rio ao fundo reorganiza-me, a partir de agora, há medida que os passos nos afastam da zona mais tensa do bairro também mando eu:
- E se escolhessemos cada um o nosso personagem?
- Um quê?
- Quando eu era puto tinha um grupo de aventuras e todos tinhamos um nome de guerra...
- Claro, eu sou o...
E começaram aí a escolher o nome. Ainda não tinhamos chegado aos contentores, já tinhamos uma canção e um grito comum.
- Podemos fazer uma bandeira, João?
Claro que podemos, podemos fazer tudo. E fazemos quase tudo. Eu troco brincadeiras antigas, atirar pedras ao rio, escondermo-nos, com outras, que eles me trazem, subir aos contentores, dizer palavrões, gritar. E ao fim de uma hora e tanto voltamos. Eles inventam cada vez mais promenores sobre o grupo. Eu sinto-me feliz, muito feliz. Não fiz nenhuma das actividades de expressão dramática que deveria ter feito, mas tinha conquistado o grupo:
- Voltas, João?
- Só volto se vocês me mostrarem um sitio giro.
E marcámos logo ali um novo encontro. Ainda não sabíamos mas tinha nascido ali a Malta das Ideias.

Olivais Vivos: animar o Vale do Silêncio


imagem:josé soudo

No princípio dos anos noventa surgiu nos Olivais um projecto vinculado ao Contigo Vais Longe, o Olivais Vivo, que tinha várias componentes: animação desportiva e animação da área das expressões (dança, expressão musical e dramática) e algumas características distintivas, entre as quais uma equipa de rua, que apoiava o trabalho dos animadores das várias áreas, investindo na relação e na informação. Fui chamado a colaborar na área da expressão dramática embora, dada a dinâmica criada, tivéssemos todos nós participação num colectivo que integrava todas as valências do projecto e em que era discutida muita da estratégia seguida. O Olivais Vivo acabou por ter um final diferente do previsto (irregularidades financeiras imputadas à vereadora responsável pela coordenação do mesmo levou à alteração abrupta do modelo que estava a ser seguido), e independentemente do constante processo de análise crítica que fazíamos, funcionou para mim como um espaço de experimentação de práticas de animação que ainda hoje valorizo, como por exemplo, a da articulação entre actividades de rua (grande parte delas no Vale do Silêncio) e actividades em espaço fechado (ateliês, prática desportiva, ginásios, escolas). E mais do que isso, um regresso aos Olivais, local do qual eu estava, por causa da minha actividade profissional, muito afastado, acabando também por ser nessa altura que desenvolvo, com o grupo de teatro da paróquia, um projecto teatral a partir de vivências e histórias dos olivais. Para além de ter sido aqui que, através do projecto Malta das Ideias, a minha intervenção deu um salto qualitativo muito grande (eu nesta altura ainda estava muito preso à minha afirmação profissional, era actor, animador de expressão dramática, e precisava que essa distinção técnica marcasse as minhas relações não só com a entidade que me pagava, o que até seria natural, mas também com o grupo). Creio que foi muito por estar a trabalhar em casa que eu senti um outro tipo de apelo e ligação e é assim que a partir do projecto Malta das Ideias percebi realmente o que é que realmente queria andar a fazer pelo território da animação sócio cultural.

and today, 15th of November

HAPPY BIRTHDAY LOURENÇO MARQUES !!!!!


Ilustre Olivalista & a very good friend !!!

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

FAZ DE CONTA

Ora aqui jaz um blogue onde o dito cujo só postou uma vez porque se esqueceu da password e jamais lá conseguiu entrar… nunca mais quis nada com a net.

É só style!!


Mais gaiijos giros, ou com pinta, sei lá... os dois são casados com Oliveiras!!

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Olivais Novos

Hoje que há um blogue sobre os Olivais e onde, como diz o Afonso, a Santa Maria dos ditos reconhece os seus frutos, apetece-me dizer a alegria que sinto por saber que a Alexandra Lucas Coelho (jornalista do Público, que recebeu recentemente o prémio Gazeta de Jornalismo, e aqui na posição que lhe é menos habitual, a de entrevistada) é moça criada nestas terras vastas do Olival. A Alexandra para além do seu trabalho na área cultural (leia-se esta conversa roubada a Sophia de Mello Breyner), tem sido também, com outra azeitona, o Pedro Caldeira Rodrigues, um dos mais interessantes jornalistas a trabalhar em zonas de conflito. É aliás daí, das longas temporadas em Israel e na Palestina durante o ano de 2002 e seguintes que retirou o material para o seu livro Oriente Próximo.

Grande prazer não escusa comer

2º GRANDE BANQUETE DO OLIVESARIA

Lisboa, dia 24 de Novembro no ano 2007
(Dia de St.ª Flora, Lua Cheia)





















Lista de comensais (Provisória)

  • Lobita
  • Vila Pery

  • Xai xai

  • Benguela

  • Fulacunda

  • Lobito

  • Moçâmedes

  • Bafatá (? por razões esvoaçantes)

  • Intrusa (? por razões familiares)

  • Inhambane (? só se for em Lisboa)

  • Pedro Venâncio (? no caso de se encontrar em Lisboa)
  • Bonanza (? caso passe por Lisboa)
  • Manafá
  • Dona Manafá
  • João Belo

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

24 de Novembro (sábado)

Aproveitando a frase do Benguela, botem lá os vossos nomes para a janta, cujo lugar não está ainda definido:

Lista de Comensais (por definir se vêm os apêndices...):
Lobita
Vila Pery
Xai xai
Benguela
Fulacunda
Lobito
Moçâmedes
Bafatá (?)
Intrusa (? por razões familiares)
Inhambane (? só se for em Lisboa)
Pedro venancio (? no caso de se encontrar em Lisboa)

Muitas das motas Olivalenses eram arranjadas no quintal deste menino...

domingo, 11 de novembro de 2007

Picasso ? ? ?


Picasso porque baseado na arte de Kiki Picasso, membro do Bazooka, grupo de acção artística gráfico-punk francês dos finais de 70.

(©1982, Pepe Picasso)
(d'après photo prise par Dguiól)

p' rá lagartada do burgo .... que lindos são sem riscas!!



- Alguém à frente ??
- Os do costume, porquitos dragões e ... a ÁGUIA
ALTANEIRA!!







© Vasco Croft
in Arquitectura e Humanismo - O papel do Arquitecto, hoje, em Portugal, 2001


um livro escrito por um dos arquitectos que participou na construção dos Olivais, onde, para além das imagens acima publicadas, é possível perceber o processo por detrás do desenho, das arquitecturas, das obras.

Por falar em livros...



... também tenho este cá em casa.

É de 2002 e foi o meu filho que o comprou, sem saber que o pai conhecia o autor.

Noites do Olival


Há dez minutos que estou a olhar esta janela.
Tenho este hábito. Sempre que quero ver para dentro aproximo-me de uma janela, de uma varanda e assim fico, a mirar aquilo que em mim subsiste como imagem. Esta é actual, tirada à dias de casa da minha mãe, mas é quase igual a uma com vinte anos. Era a minha janela preferida para esfumaçar. As milhares de coisas iguais que eu fiz durante, parece-me, milhares de anos. Estas tijoleiras de noite são mais bonitas, parecem até saídas de alguma cidade espanhola, há uma harmonia nelas que se enquadra no desenho da paisagem. No lado esquerdo a escola de Nampula. Como eu gostava de ficar doente e não ir à escola para, do alto do beliche, poder, na sorna, ver os vários jogos de futebol. As vozes no pátio. As vozes a correr no pátio. Eu já conhecia os craques, os pintas da bola. Os fussangas. Aqueles que não faziam nada mas que mandavam no jogo. Era divertido assistir a estes jogos sem árbitro. É falta, é falta!, ouvia-se desde o pátio até à minha janela. Também havia tareia por vezes. Ou, noutras, o filme do jogo parecia que parava, ficava muito silencioso, e eles faziam uma mini-roda onde discutiam um lance, uma jogada. Eu adorava quando alguma professora faltava e, depois de correrem ao som da campainha, retornavam em magote ao pátio para a jogatina.

Todas as casas onde morei, quase todas as casas onde morei, ficavam próximas de um pátio de uma escola. É isso que persiste em mim como imagem. Também nós, no tempo em que os portões ainda não estavam fechados, e se podia franquear com alguma facilidade o muro, passávamos tardes inteiras a jogar à bola no pátio da escola. E por vezes aparecia a ciganada, para acabar com o divertimento. Já aqui se falou nisso.
O ser de noite torna tudo mais claro para mim. As noites de insónia. O levantar-me da cama para escrever. Eu naquela altura levava-me muito a sério. Um dia, tinha uns quinze anos, resolvi escrever a história de um tipo que, tal como eu, tinha vindo da província para a cidade. Peguei no mapa, baixei o dedo, cai numa terra chamada Arneiros, perto de Freixianda. Um rio, o Nabão, ligava estes dois continentes anões. Eu nunca tinha visto o lugar. Que importava? Misturei a aldeia da minha infância com todos os lugares e memórias campestres que conhecia. Era a história de um tipo que vinha para Lisboa com o sonho de se tornar escritor. Em menos de um ano o romance chegou às quatrocentas e quarenta páginas, altura em que uma palavra, fim, pôs termo à saga. A certa altura, talvez por achar muito interessante a vida que eu vivia, repito, eu na altura levava-me muito a sério, o romance tornou-se numa espécie de diário, se fosse hoje, blogue. Depurava o que me acontecia no dia a dia e colocava lá os temas de discussão, a agenda do que nos ocupava. Já não me lembro dos pormenores mas creio que Lisboa não era Lisboa. À imagem dos romances de Somerset Maughan que tanto me empolgavam, Lisboa era Paris. O Martim Moniz uma espécie de Quartier Latin, meio chula, meio operário, meio boémio. Era a súmula dos lugares inexistentes com os lugares feitos de ilusão. Era uma pepineira desgraçada, escrita a tinta permanente, em cadernos escolares de capa azul, meio cartonada, com linhas vermelhas e margem definida. Houve aliás apenas uma pessoa que o leu, o apicultor, aquele que o vazio ilustra. Ele era da minha turma, da do Fula, e com outros dois dedicava-se a uma estranha prática: observação de pássaros. E morava nuns prédios duplex, mesmo atrás da minha casa, pelo que se tornou uma companhia quando vinhamos dos Viveiros. E ganhei-lhe confiança para lhe contar os meus delírios de escrita (eu já disse que naquela altura me levava muito a sério?). Um dia começámos a falar, ele disse-me que escrevia, eu também, decidimos que cada um leria, em frente um do outro, online diríamos hoje, as coisas um do outro. Eu safei-me com quinze páginas de um conto de Natal que depois até reescrevemos a meias, o tipo lá teve de engolir quatrocentas e quarenta páginas comigo a controlar-lhe todas as reacções, todos os trejeitos, gostaste? Entretanto o livro não resistiu aos meus dezoito anos, nessa altura fiz uma fogueira com todas as minhas histórias e deixei que o silêncio tomasse um pouco conta de mim. Ficou-me a imagem. De uma noite, de uma janela aberta, de um apanhar um pouco de ar fresco enquanto a história não avança. De um escrevinhar que, curiosamente, é o que hoje me volta a ligar a esta janela, a este bairro, a este oliversejar.



2ª Imagem roubada no post acima com imagens sobre a génese dos Olivais